Numan Albarbari نعمان البربري

A LAVRA QUE AINDA NÃO FOI PINTADA

A LAVRA QUE AINDA NÃO FOI PINTADA

Romance

Eram quase quatro da tarde quando Rima Najjar pousou os pincéis e recuou dois passos para contemplar a tela estendida diante dela, sobre a mesa inclinada.
Um retrato flamengo do século dezessete, chegado ao ateliê de restauro do museu três semanas antes, carregado de camadas de verniz amarelado que escondiam por completo os traços do rosto central: uma mulher sentada junto a uma janela, as mãos cruzadas no colo, os olhos voltados para um ponto invisível fora da moldura, como quem espera alguém que não virá.
— Ainda há uma mancha teimosa no canto esquerdo — disse Clara, sua colega de ateliê, aproximando-se com duas xícaras de café. — Você está nesse quadro desde a manhã, sem parar.
Rima sorriu e pegou uma das xícaras.
— O rosto finalmente está aparecendo. Reparou? A camada de baixo escondia uma expressão bem diferente do que a gente esperava. Ela não sorri como pensávamos. Está… inquieta.
— Talvez estivesse esperando uma carta que nunca chegou — disse Clara, sorvendo o café. — É sempre assim com essas telas antigas: uma história enterrada sob uma camada de verniz, e a gente passa a vida raspando com paciência de monge.
Rima riu baixinho. Era essa a parte do ofício que mais amava: o instante em que a verdade se revela sob as camadas acumuladas do tempo e do descaso.
Trinta e quatro anos de vida relativamente curta, quinze deles passados naquela sala silenciosa com vista para uma rua de paralelepípedos no coração de Viena, devolvendo aos rostos antigos os traços esquecidos.
Nascera em Damasco, mas daquela cidade só carregava fragmentos dispersos: um perfume de jasmim num pátio de que já não lembrava bem a forma, a voz de uma mulher cantando numa cozinha estreita, uma mão grande e quente segurando a sua enquanto atravessavam uma rua cheia de gente. Eram lembranças como fotografias rasgadas, as bordas perdidas para sempre — por mais que tentasse, jamais conseguia recompor a cena inteira.
A família emigrara quando ela tinha quatro anos, em circunstâncias cujos detalhes nunca soube por completo; o pai falava do assunto com extrema cautela sempre que ela perguntava, e a mãe chorava em silêncio quando Damasco surgia de passagem numa conversa, mudando de assunto depressa. Instalaram-se em Viena, onde o pai começou um pequeno negócio e, com o tempo, ergueu uma vida estável. Depois os dois morreram juntos, num acidente de carro numa estrada de montanha, quando Rima tinha dezesseis anos — voltava de uma excursão escolar da qual não participara, o que por anos considerou uma sobrevivência absurda, imerecida.
Desde aquela noite funesta, o tio Kamal assumira sua guarda, embora vivesse quase sempre entre Dubai e Beirute, homem de negócios bem-sucedido e sempre ocupado, contentando-se com breves telefonemas periódicos e generosas transferências bancárias que cobriram inteiramente seus estudos universitários — mas que jamais preencheram o vazio da família de verdade que lhe faltava. Fora sempre gentil com ela, educado, generoso, mas também distante de um modo difícil de nomear com exatidão, como se houvesse entre os dois uma parede de vidro transparente: visível, porém intransponível por mais que tentasse.
— Você vai à pré-visitação especial hoje à noite? — perguntou Clara, interrompendo seus pensamentos. — A casa de leilões abre um novo salão, e há duas peças que talvez lhe interessem, de uma coleção síria particular que chegou há pouco de Istambul.
— Talvez — disse Rima, sem tirar os olhos da tela. — Acabei de terminar essa parte, e quero fixar a camada antes de sair.
Trabalhou em silêncio por mais uma hora, passando com delicadeza o algodão embebido em solvente sobre a superfície da tela, revelando novos detalhes: uma sombra leve sob o olho esquerdo, uma pequena rosa bordada na barra da manga, um fio de luz caindo sobre a testa vindo de uma janela que não aparecia no quadro. Eram esses os momentos em que perdia por completo a noção do tempo — quando a tela deixava de ser uma superfície fosca e inerte para tornar-se uma janela sobre uma vida inteira, a vida de alguém que viveu, amou, esperou, e talvez tenha morrido esperando algo que nunca chegou.
Passou por ali o chefe do departamento, o professor Steiner, homem na casa dos sessenta que costumava rondar os ateliês de restauro no fim de cada dia.
— Trabalho maravilhoso, como sempre, Rima — disse, examinando a tela. — A propósito, soube da coleção de peças sírias que chegou à casa de leilões esta semana? Parece vir do espólio de uma antiga família damascena, dispersado após a morte da última herdeira em Istambul. Talvez lhe interesse dar uma olhada, dada a sua origem.
— Ouvi algo da Clara, sim — disse Rima, sentindo por um instante uma curiosidade fugaz, sem imaginar que dali a poucas horas se tornaria um detalhe pequeno num quadro muito maior do que podia supor.
— Vá lá — disse Steiner, virando-se para sair. — Às vezes essas coleções dispersas guardam surpresas que ninguém espera.
Rima sorriu com educação, sem comentar, sem saber ainda quão precisas seriam aquelas palavras casuais de seu chefe.
Quando deixou o museu, já passava das sete, e a rua estava banhada por aquela luz alaranjada e suave de fim de tarde que Viena tanto ama nessa estação do ano. Caminhou como sempre até seu apartamento no Nono Distrito, atravessando a pequena ponte de pedra sobre o canal, parando na padaria que vendia pão de centeio fresco, depois na banca do velho florista que a conhecia pelo nome havia muitos anos.
— Uma rosa branca hoje, senhorita Rima? — perguntou o homem, com seu sorriso de sempre.
— Não, obrigada, Herr Weiss, hoje não — disse ela, sorrindo também. — Sinto que esta semana não vai precisar de flores.
Não sabia, enquanto caminhava com passos tranquilos rumo a casa, o quanto se enganava naquela frase casual.

Ao chegar à entrada do prédio, encontrou o senhor Berger, o velho zelador que trabalhava ali havia duas décadas, esperando-a com uma expressão estranha, mistura de perplexidade e curiosidade que ela nunca tinha visto em seu rosto tão calmo.
— Senhorita Najjar, chegou uma encomenda pra senhora hoje. Nunca vi nada parecido, francamente.
— Uma encomenda? Não pedi nada, e nem lembro de ter dado meu endereço a ninguém recentemente.
— De qualquer jeito, não foi um carteiro comum que deixou — disse Berger, tirando de trás do balcão uma caixa de madeira retangular, embrulhada num pano de linho grosseiro e amarrada com uma corda de juta resistente. — Um homem de aparência estranha, alto, de casaco escuro apesar do calor, quase não falou. Só pediu que eu entregasse pessoalmente quando a senhora chegasse, e foi embora a pé antes que eu pudesse perguntar o nome. Não há remetente na caixa, nem selo, nem sequer o seu nome impresso como de costume — está escrito à mão, com uma elegância chamativa.
Rima pegou a caixa com cuidado. Era mais pesada do que esperava, e a madeira, antiga, exalava um cheiro de poeira e de tempo que lhe lembrava as salas de depósito do museu. Olhou o nome escrito na embalagem, em tinta preta escura:
“Rima Najjar”
Numa caligrafia árabe elegante, apurada, mais parecida com traço de pintor do que com letra de pessoa comum. Embaixo, em letra um pouco menor:
“Só pode ser aberta a sós.”
Sentiu um arrepio leve percorrer os braços, apesar do calor da entrada. Ninguém conhecia seu nome completo em árabe, naquela forma tão formal, além do pouco que restava de sua família.
— Obrigada, Herr Berger — disse, tentando parecer mais serena do que realmente estava. — Deve ser um presente atrasado de algum parente.
— Talvez — disse o velho, mas o olhar não estava de todo convencido. — Cuide-se, senhorita Najjar. Aquele homem deixou uma impressão estranha, não sei bem explicar como.
Subiu ao apartamento no quarto andar e pousou a caixa sobre a mesa de jantar, sem tirar o casaco. Sentou-se diante dela por longos minutos, contemplando-a como se fosse um ser vivo prestes a se mover de repente. Por fim, depois de servir-se de uma taça pequena de vinho branco, desatou o nó devagar e ergueu a tampa de madeira.
Lá dentro, envolta em camadas de papel de seda branco macio, havia uma tela relativamente pequena, não maior que cinquenta por quarenta centímetros. Retirou o papel, camada após camada, com dedos que tremiam de leve, movida por uma curiosidade primeiro profissional, só depois pessoal.
Então viu o rosto.
O coração parou por um instante inteiro, e o ar da sala pareceu congelar de repente.
Era um retrato a óleo de uma mulher sentada numa pose ligeiramente de perfil, vestindo um vestido azul-marinho de gola branca simples, os cabelos escuros presos atrás da cabeça com um descuido elegante.
Mas o rosto…
O rosto era exatamente o dela.
Não era uma semelhança passageira, nem um vago parentesco de família que se pudesse explicar por genes compartilhados. Cada detalhe coincidia com exatidão: a curva da sobrancelha esquerda, um pouco mais alta que a direita, no gesto familiar de interrogação silenciosa; a pequena pinta logo abaixo do canto direito da boca, exatamente em seu lugar verdadeiro; até o modo de inclinar a cabeça para a esquerda quando mergulhava em pensamento profundo — hábito que Clara sempre notara nela.
Rima sentou-se devagar na cadeira, os joelhos mal a sustentando, os olhos fixos na tela sem piscar, como se esperasse que o rosto pintado se movesse de repente e dissesse algo capaz de explicar todo aquele mistério súbito.
— Isso é impossível — sussurrou para si mesma, em árabe, língua que raramente usava quando estava sozinha em seu apartamento vienense. — Deve haver uma explicação lógica.
Fechou os olhos por um instante, e de repente veio à mente uma imagem que não a visitava havia muitos anos: um pátio pequeno pavimentado de pedra branca, um pé de jasmim trepando por um muro pintado de azul-claro, duas mulheres sentadas num banco de madeira — uma segurando sua mãozinha, a outra sentada um pouco atrás, na sombra, de modo que não conseguia ver-lhe o rosto com clareza por mais que tentasse aproximar a lembrança.
Por que aquilo voltava agora, justo naquele momento?
Abriu os olhos de novo diante do rosto silencioso da tela, e sentiu que algo em seu íntimo, adormecido havia muitos anos, começava a despertar devagar.
Foi buscar a lupa profissional que sempre guardava na bolsa de trabalho e começou a examinar a tela com olhos de especialista. A camada de tinta era sem dúvida antiga, com rachaduras finas e homogêneas conhecidas tecnicamente como “craquelê”, compatíveis com uma idade não inferior a trinta ou quarenta anos. O tecido era de linho pesado, comum em certos ateliês do Oriente Médio naquela época específica.
Inclinou-se mais para examinar a camada de tinta nas bordas do rosto. Notou o modo de tratar a sombra sob o queixo, um gradiente sutil entre marrom queimado e vermelho claro, técnica que conhecia bem de seus estudos sobre uma escola artística que floresceu em Beirute e Damasco durante os anos oitenta. Não era mão de amador; era mão de artista experiente, com uma assinatura reconhecível que, dado tempo suficiente, poderia distinguir entre mil outras telas.
Virou a tela com muito cuidado para examinar o verso. Encontrou ali, escrita a lápis desbotado sobre o tecido áspero do fundo, uma data clara apesar do tempo passado:
“Outono de 1987”, e abaixo, duas letras em árabe, entrelaçadas num estilo de assinatura artística distinta:
“A. H.”
Rima fitou a data por longo tempo. Nascera na primavera de 1992. Aquela tela, segundo todas as evidências materiais visíveis a seus olhos treinados, fora pintada cinco anos inteiros antes de seu próprio nascimento, com um rosto que reproduzia o seu atual com precisão espantosa.
Ligou para Clara imediatamente, os dedos tremendo de leve.
— Clara, preciso da sua opinião sobre uma coisa muito estranha. Agora, se puder.
Menos de vinte minutos depois, Clara estava de pé no apartamento de Rima, encarando a tela em silêncio absoluto por mais de um minuto inteiro, o rosto passando gradualmente da curiosidade ao espanto declarado.
— Rima — disse por fim, em voz baixa e tensa —, isso é… algum tipo de brincadeira?
— Não. Não pedi nada a ninguém, juro.
— Mas esse é o seu rosto, exatamente. Até a pinta está no lugar certo.
— E essa data escrita atrás… 1987. Cinco anos antes de eu nascer. Conferi a conta três vezes.
As duas amigas passaram a hora seguinte examinando a tela de todos os ângulos possíveis, comparando seus detalhes com fotos antigas de Rima em busca de qualquer explicação lógica. Por fim, Clara sugeriu que levasse a tela ao laboratório de análise de tecidos e pigmentos do museu, para determinar sua idade real com precisão científica.
— Farei isso amanhã de manhã — disse Rima. — Mas, por favor, não conte a ninguém no museu ainda.
— Claro. Mas, Rima… isso não te apavora de verdade? Alguém sabe seu nome completo em árabe, conhece seu rosto nos mínimos detalhes anos antes de você nascer, e depois te manda a tela secretamente por um homem misterioso?
Rima admitiu para si mesma que o medo já começara a se infiltrar em seu peito desde o instante em que erguera o primeiro papel de seda sobre o rosto daquela mulher estranha que era ela, e ao mesmo tempo não era, numa contradição que não conseguia compreender.
Antes de sair, Clara disse:
— Vamos pensar nisso com lógica. Primeiro: pode ser uma falsificação recente, feita com grande habilidade para parecer antiga, usando uma foto real sua.
— Pensei nisso. Mas as rachaduras da tinta são completamente naturais, não forjadas por nenhuma técnica que eu conheça.
— Segundo, então: pode realmente existir outra mulher, de uma geração anterior, que se pareça com você a esse ponto surpreendente.
— Mas a pinta, Clara. E a sobrancelha. E a inclinação da cabeça. Isso não é coincidência de semelhança geral.
Clara calou-se por um instante, depois falou com voz mais séria:
— Então resta uma terceira possibilidade, que acho que você já vem considerando desde o início: que alguém na sua família, talvez uma geração inteira, escondeu de você algo essencial. Uma história que nunca lhe contaram. E que essa tela, e quem a enviou, estão tentando romper esse velho silêncio de família.
Rima olhou longamente para a amiga, depois para a tela, e por fim assentiu bem devagar, como quem concorda por fim, ainda que apenas num silêncio interior, com a possibilidade que evitava enfrentar havia duas horas.

Depois que Clara foi embora, perto da meia-noite, Rima ficou sozinha em seu apartamento, sentada diante da tela até altas horas. Tentou ler, assistir a algo leve na televisão, ocupar-se com algum trabalho doméstico simples, mas os olhos voltavam sempre, como se movidos por vontade própria, para aquele rosto pendurado no cavalete no canto da sala de estar.
Antes de pensar em telefonar para o tio, sentou-se ao computador e pesquisou “A. H.” junto com “pintor”, “Damasco” e “1987”, e apareceram resultados dispersos sem sentido algum. Sentiu uma frustração crescente; ela, tão acostumada a encontrar respostas precisas para toda questão sobre a autenticidade de uma peça artística, via-se agora completamente impotente diante de um enigma que dizia respeito ao seu próprio rosto.
Hesitou em ligar para o tio Kamal apesar da diferença de fuso horário. A relação entre os dois fora sempre educada, mas distante. Sempre que ela lhe perguntava, ao longo dos anos, sobre detalhes de sua infância em Damasco, ele respondia com respostas genéricas e breves, mudando de assunto em seguida.
Por volta da uma da madrugada, o telefone tocou de repente. Número desconhecido, sem prefixo de país claro.
Atendeu por fim.
— Alô?
Silêncio do outro lado, depois a voz de um homem, baixa, calma de um jeito que anunciava mais do que as próprias palavras revelavam, falando um árabe culto e correto, com um sotaque de origem difícil de identificar:
— Senhorita Najjar. Boa noite. Peço que não faça perguntas demais, e tão depressa, a quem ainda não conhece. Nem toda semelhança neste mundo merece ser revelada de imediato, e nem todo segredo antigo precisa ser aberto sem a devida preparação.
— Quem é você? Quem me enviou essa tela?
— Não sou o inimigo que imagina neste momento, mas também não sou o amigo de que precisa, ainda não. Virá o tempo em que compreenderá tudo. Mas até lá, guarde a tela em lugar seguro, e não a mostre a ninguém. E, por favor, não ligue para o seu tio Kamal sobre isso agora.
O coração de Rima parou de verdade ao ouvir o nome do tio.
— Como você conhece meu tio?
— Quero que continue viva, e que continue sendo quem é, sem que nada mude em sua vida antes que esteja pronta para isso. Há quem queira que essa tela, e a verdade que carrega, fique enterrada para sempre. Eu não sou um deles.
— Então quem é você?
— Porque algumas verdades, ditas depressa demais e sem preparo suficiente, destroem mais do que curam. Confie em mim nesta única coisa: não vou deixá-la caminhar sozinha por esse caminho quando chegar sua hora verdadeira.
— E se eu me recusar a esperar?
Um breve silêncio.
— Aí serei obrigado a agir mais depressa do que planejei, e isso pode nos expor a um perigo para o qual ainda não estamos prontos. Por favor, me dê só um pouco de tempo.
Mas a linha já tinha caído, deixando-a no silêncio pesado do apartamento, o som da própria pulsação sendo o único que ouvia com clareza naquele instante.
Ficou de pé no meio da sala de estar, parcialmente às escuras, por longos minutos, os olhos indo e vindo sem parar entre a tela agora apagada do celular e o rosto pintado que a fitava do canto do quarto com uma calma inabalável, como se soubesse, desde que fora pintado cinco anos antes de seu nascimento, que aquela noite exata haveria de chegar um dia.
Ainda não sabia que aquele telefonema misterioso não era senão o primeiro fio de uma trama complexa que se estenderia, nas semanas seguintes, até Damasco — cidade de que mal se lembrava —, até um segredo de família enterrado com extremo cuidado havia mais de trinta anos, e até um homem que ainda não conhecera face a face, mas que a observava de longe havia muito tempo.
Sentou-se por fim no sofá, abraçou os joelhos com os braços como uma criança pequena e assustada, e olhou longamente para a tela na penumbra da sala, tentando convencer-se de que tudo aquilo não passava de um grande mal-entendido cuja explicação se dissolveria à luz da manhã. Mas uma parte funda dentro dela, cuja existência ignorara até aquela mesma noite, sussurrava-lhe algo bem diferente: que sua vida, com tudo o que conhecera e a que se acostumara e construíra a duras penas ao longo de trinta e quatro anos, estava prestes a mudar radicalmente, de um jeito sem volta possível.

Na manhã seguinte, ao acordar depois de uma noite inquieta e de pouco sono, Rima encontrou uma única mensagem de texto no celular, chegada exatamente às quatro da madrugada do mesmo número desconhecido, composta de uma única frase curta, mas suficiente para gelar-lhe o sangue nas veias:
“Você não é a única.”
Logo abaixo da frase, uma pequena foto anexada, em resolução propositalmente baixa: outra imagem da mesma tela, mas de um ângulo bem diferente, mostrando que uma parte da tela original estava dobrada com cuidado atrás da moldura de madeira, escondida propositalmente do olhar direto — e nela, traços vagos de um segundo rosto, uma outra mulher de pé atrás da mulher sentada em primeiro plano, o rosto incompleto, como se o pintor tivesse parado de repente de trabalhar, talvez interrompido, antes de terminar de traçar seus últimos contornos.
Um rosto que também se parecia com o de Rima de um modo inquietantemente próximo — mas não idêntico, não exatamente, se olhasse bem de perto as pequenas diferenças que seus olhos treinados começavam a captar devagar.
Ficou parada por muito tempo em sua pequena cozinha, o café da manhã esfriando sem que o tocasse. Tentou escrever uma resposta ao número desconhecido: “Quem é você? Quem é a segunda mulher da tela?” Mas apagou a frase antes de enviá-la. Sentia que qualquer palavra que escrevesse poderia ser um erro irreversível, num jogo cujas regras ainda desconhecia.
Pensou no telefonema da noite anterior, e no aviso do homem misterioso contra a pressa de ligar para o tio Kamal especificamente, e na dolorosa coincidência de que, poucas horas antes, estivera prestes a fazer exatamente isso. Como ele sabia que ela pensaria em ligar justamente para ele?
Olhou o relógio; precisava se arrumar para ir ao museu, onde levaria a tela em segredo ao laboratório de análise, como prometera a Clara. Mas sentiu de repente que aquilo não bastaria, e que as respostas que procurava não estariam num laudo científico sobre a idade do tecido e da tinta, mas num lugar bem mais distante, um lugar que não visitava havia trinta anos inteiros.
Enquanto punha de lado a xícara de café fria, lembrou de repente as palavras do professor Steiner do dia anterior: uma coleção de peças sírias chegada à casa de leilões, do espólio de uma antiga família damascena dispersado após a morte da última herdeira em Istambul. Sentiu um arrepio gelado percorrer todo o corpo. Seria mera coincidência? Ou haveria um fio invisível ligando aquela coleção misteriosa à tela que lhe chegara na noite anterior?
Decidiu naquele exato instante que sua primeira parada da manhã não seria o laboratório de análise, como prometera a Clara, mas a própria casa de leilões.
Parou diante do grande espelho da entrada antes de sair, olhando o próprio reflexo por um longo momento, como se o comparasse, sem plena consciência disso, com o rosto pintado pendurado atrás dela na sala. Era ela mesma, sem dúvida, mas sentiu de repente que havia outro rosto a fitá-la do fundo daquele reflexo, um rosto que nunca vira antes, mas estranhamente familiar.
Fechou a porta atrás de si e desceu a escada com passos mais rápidos que o normal, carregando na bolsa a tela envolta com cuidado outra vez, e no peito uma única grande pergunta que começava a engolir todas as perguntas menores que a atormentaram a noite inteira: quem era ela de verdade, se não fosse, como acreditara durante trinta e quatro anos, apenas uma mulher comum nascida em Damasco e emigrada ainda criança para Viena?
Pela primeira vez em muitos anos, Rima se pegou pensando a sério, e desta vez de modo plenamente consciente, em viajar para Damasco.

A casa de leilões ficava num elegante prédio de pedra perto do grande anel viário do centro de Viena, a fachada ornada de janelas altas de onde pendiam cortinas de veludo escuro.
Rima ficou diante da porta de vidro suntuosa por um minuto inteiro antes de empurrá-la, tentando lembrar o argumento que preparara pelo caminho: que vinha apenas em sua capacidade profissional, uma restauradora curiosa por natureza do ofício, não uma mulher perseguindo o fantasma do próprio rosto através de três décadas.
Recebeu-a uma mulher na casa dos quarenta anos, elegante de um jeito estudado, apresentando-se como “Veronika Hofer”, responsável pelo setor oriental da casa de leilões.
— Senhorita Najjar! Que surpresa agradável. O professor Steiner me avisou que talvez passasse por aqui. Venha, a coleção está exposta no salão dos fundos, para a pré-visitação especial.
Rima seguiu-a por um longo corredor ornado de telas de épocas diversas, sentindo o coração bater mais depressa do que convinha a uma simples visita profissional de rotina. Ao entrar no salão, parou no umbral por um instante.
As peças estavam dispostas sobre mesas cobertas de pano preto: uma bandeja de cobre entalhada, um conjunto de pequenos manuscritos, um colar de prata antigo, e, na última mesa, no extremo mais distante do salão, três telas apoiadas num cavalete de madeira.
Aproximou-se com passos lentos e deliberados, tentando não deixar transparecer nada da tensão que lhe apertava o peito. A primeira tela era uma paisagem de um pomar, sem assinatura visível. A segunda, o retrato de um homem idoso de tarbush, aparentando ser do início do século vinte.
Já a terceira a fez congelar no lugar.
Era uma pequena fotografia de grupo, originalmente em preto e branco e depois colorida à mão com aquarelas leves, como era costume da época, de uma família inteira posando diante de uma casa damascena tradicional, cuja porta de madeira entalhada lembrava bastante as que vira em livros sobre a Damasco antiga.
Na fileira da frente, sentavam-se duas mulheres praticamente idênticas entre si, vestindo dois vestidos iguais com uma pequena diferença no colarinho, cada uma com a mão sobre o ombro da outra.
Não havia na foto nada que provasse coisa alguma com certeza, mas algo na forma dos dois rostos, no modo de sentar, naquela estranha identidade entre duas mulheres que pareciam gêmeas, fez a mão de Rima tremer ao estendê-la para segurar a moldura da fotografia.
— Sabe quem são eles? — perguntou, tentando soar casual, sem tensão na voz.
Veronika aproximou-se e olhou a pequena etiqueta colada atrás da moldura.
— As anotações que recebemos junto com a coleção são bem escassas, infelizmente, a maior parte da documentação original se perdeu ou não foi preservada. Mas aqui está escrito: “Família Najjar, de Damasco, por volta de 1965.”
Rima sentiu o chão inclinar-se de leve sob os pés.
— Najjar? Isso… isso é o sobrenome da minha família.
Veronika ergueu as sobrancelhas com genuína surpresa.
— Sério? Que coincidência notável! Mas Najjar é um sobrenome relativamente comum no Oriente Médio, não é? Talvez não haja ligação real.
Rima não respondeu. Os olhos fixos nas duas mulheres idênticas da fotografia, tentando ler em seus traços desbotados algo parecido com uma resposta. Logo atrás delas, de pé com evidente segurança, um homem de meia-idade pousava a mão no ombro de uma delas em particular — a mulher sentada à direita —, num gesto que carregava algo mais de posse do que da ternura paterna habitual.
— Poderia ver o restante da documentação que chegou com esta peça específica? — perguntou por fim. — Como restauradora, talvez eu pudesse ajudar a documentar melhor a coleção.
Veronika hesitou por um instante, depois disse:
— O dossiê completo está guardado no arquivo, mas posso lhe mostrar uma cópia digital. Venha.
Levou-a a um pequeno escritório atrás do salão e abriu um arquivo digital na tela do computador.
— A coleção inteira nos chegou através de um advogado em Istambul, representando o espólio de uma senhora falecida no mês passado, a última pessoa viva de um determinado ramo da família. O nome dela… aqui, “Wafa Najjar”, nascida em 1961, falecida em Istambul sem herdeiros diretos.
Rima leu o nome três vezes seguidas, como se esperasse que as letras mudassem diante de seus olhos se as fitasse por tempo suficiente. Nunca ouvira aquele nome em toda a vida, nem do pai, nem do tio Kamal, nem numa conversa casual, nem em ocasião familiar alguma. E, no entanto, havia algo no modo como o nome estava escrito no dossiê, um número de telefone antigo riscado à mão na margem do documento, que a fez sentir que não estava diante de um nome totalmente estranho, mas de uma peça de um quebra-cabeça que lhe fora ocultada de propósito a vida inteira.
— Poderia me passar os dados do advogado com quem trataram? — perguntou, tentando esconder o leve tremor na voz. — Só para fins de documentação profissional, claro.
Veronika olhou-a com leve curiosidade, como se começasse a perceber que aquilo era mais do que um interesse profissional passageiro, mas não comentou.
— Claro, vou lhe passar o cartão dele. Chama-se senhor Ünal, tem escritório no bairro de Nişantaşı.
Enquanto Veronika procurava o cartão, Rima lançou um último olhar à tela, à lista de peças listadas sob o mesmo nome do espólio. Havia um item que não fora exposto no salão, descrito com extrema brevidade:
“Caderno de cartas pessoais, em árabe, não classificado para venda, reservado a possíveis herdeiros, se existirem.”
Leu a última frase duas vezes. “Possíveis herdeiros, se existirem.” Como se alguém já soubesse, mesmo naquele documento jurídico e seco, que um dia alguém viria procurar.

Rima saiu da casa de leilões com o sol ainda alto no céu do meio-dia, mas sentiu como se emergisse de um túnel escuro para uma luz que os olhos já não suportavam com facilidade. Sentou-se num banco de pedra no jardim vizinho e tirou o celular para ligar para Clara, mas parou.
Pensou nas palavras do homem desconhecido na noite anterior: “Nem todo segredo antigo precisa ser aberto sem a devida preparação.” E, ainda assim, ali estava ela, abrindo porta após porta com as próprias mãos, sem sentir arrependimento algum, apenas uma fome cada vez maior de saber, como se trinta e três anos de perguntas adiadas tivessem despertado de uma vez só dentro dela.
Olhou o pequeno cartão que Veronika lhe dera: “Ünal Demir, advogado, Nişantaşı, Istambul.”
Mandou uma mensagem curta a Clara: “Não vou ao laboratório hoje. Conto tudo hoje à noite. Preciso comprar uma passagem de avião.”
Não se passaram dois minutos e o celular tocou com uma mensagem. Não era de Clara.
Era do mesmo número desconhecido.
“Notei que você visitou a casa de leilões. Avisei contra a pressa, não contra parar. Se está mesmo decidida a ir a Istambul, não diga seu nome completo ao advogado Ünal antes de nos encontrarmos, você e eu, cara a cara. Estarei num café perto da Estação Central, amanhã às quatro da tarde. Venha sozinha.”
Rima fitou a mensagem por longo tempo, uma sensação fria infiltrando-se pelas pontas dos dedos apesar do calor do sol sobre a cabeça. Como ele soubera de sua visita à casa de leilões em questão de horas? Estaria mesmo a vigiá-la, ou haveria alguém dentro da própria casa de leilões que o informava de seus passos?
Olhou ao redor no jardim, para os transeuntes, para as janelas voltadas dos prédios vizinhos, perguntando-se pela primeira vez se algum olhar a observava naquele exato instante, de algum ponto que não conseguia identificar.
E, pela primeira vez desde que a caixa de madeira chegara à porta de seu prédio, o medo que lhe apertava o peito deixou de vir apenas do mistério, e passou a vir de uma percepção nova e inquietante: que ela já não buscava a verdade sozinha na escuridão, como pensara, mas que alguém caminhava a seu lado naquela mesma escuridão desde o início, passo a passo, sem que ela o visse sequer uma vez.

Rima passou aquela noite numa espécie de limbo entre a vigília e o sono, virando-se na cama enquanto a mente reorganizava sem cessar o mesmo quebra-cabeça: um rosto, uma foto, um nome, uma mensagem. Quando ligou para Clara pela manhã para contar o que descobrira na casa de leilões, ouviu um longo silêncio do outro lado da linha antes que a amiga falasse.
— Rima, me escute bem. Sei que você não vai parar, e não vou tentar convencê-la do contrário, porque conheço você o suficiente pra saber que seria inútil. Mas me recuso a deixar você ir a um encontro com um homem sobre quem não sabe nada, num café, sozinha, sem que mais ninguém saiba onde você está.
— Vou te mandar a localização exata antes de ir. E vou ficar num lugar público o tempo todo.
— Isso não basta, e você sabe disso.
Clara suspirou, audível pelo telefone.
— Pelo menos, deixe eu sentar numa outra mesa do mesmo café, de longe, sem que ele saiba que estou com você.
Rima hesitou por um instante, depois concordou, sentindo um alívio secreto que preferia não admitir nem para si mesma: estava mesmo com medo, mais do que se permitia demonstrar.
Antes de ir ao café, Rima passou pelo laboratório de análise do museu, onde seu velho colega Jürg, especialista em pigmentos e tecidos, esperava-a com os resultados do exame que ela lhe pedira em segredo dois dias antes, sobre uma amostra minúscula retirada da borda da tela.
— O resultado é conclusivo, Rima — disse Jürg, folheando seus papéis. — A datação por carbono do tecido e a análise da composição dos pigmentos apontam ambas, com clareza, para um período entre 1985 e 1990. Não há vestígio algum de material moderno, nem sinal de nenhuma técnica de falsificação conhecida. A tela é autêntica, e realmente antiga, como pensávamos.
Rima balançou a cabeça devagar, como se já esperasse exatamente aquele resultado, e ainda assim sentiu um peso a mais assentar sobre o peito ao ouvir a confirmação científica final. Já não havia espaço para dúvida, nem margem para a esperança de que tudo aquilo fosse apenas um embuste refinado prestes a se desfazer a qualquer instante.
— Mais uma coisa — acrescentou Jürg, baixando a voz apesar de estarem sozinhos no laboratório. — Encontrei um vestígio muito leve de uma segunda camada de tinta sob a camada visível, bem no canto superior direito. Parece que o pintor começou a esboçar algo ali, depois o cobriu de propósito antes de terminar. Não consigo determinar o que era sem um exame de infravermelho num laboratório mais especializado.

Faltando quinze para as quatro, Rima entrou no café perto da Estação Central, um lugar pequeno dominado pela madeira escura e pelo cheiro de café recém-torrado. Escolheu uma mesa perto da janela, de onde podia ver claramente a porta. Clara sentou-se a várias mesas de distância, fingindo-se absorta no celular.
Às quatro em ponto, entrou um homem de uns quarenta e poucos anos, alto como Berger o descrevera, mas o casaco, dessa vez, era claro, mais leve do que ela imaginara. Foi direto à mesa dela, sem hesitar nem procurar ao redor, como se soubesse exatamente onde ela estava mesmo antes de entrar.
— Obrigado por ter vindo — disse, sentando-se bem à sua frente, com a mesma voz calma que ouvira na primeira ligação. Tinha um rosto comum de um jeito inquietante, traços que não chamavam atenção nem se esqueciam facilmente, olhos castanhos calmos carregando algo mais parecido com uma velha tristeza do que com ameaça. — Meu nome é Nabil. Não vou lhe dar meu sobrenome agora, não por desconfiança, mas por razões que vai compreender depois.
— E por que eu deveria confiar em você? — perguntou Rima diretamente, tentando parecer mais firme do que de fato se sentia.
Nabil sorriu de leve, um sorriso triste.
— Não deveria. Nunca pedi isso. Peço só que escute, e depois decida por si mesma.
Pediu um café ao garçom que passava por perto, depois retomou a conversa.
— Eu conhecia Wafa Najjar. Trabalhei para ela por muitos anos, desde quando eu era jovem em Istambul. Era uma mulher que carregava um segredo muito pesado, e passou os últimos vinte anos da vida tentando encontrar o jeito certo de fazê-lo chegar até você, sem destruir sua vida no processo.
— Quem ela era, para mim? — sussurrou Rima, sentindo de repente que a própria voz quase a traía.
Nabil olhou para ela por longo tempo, como quem pesa cada palavra que vai dizer numa balança precisa que não erra.
— Era a tia da sua mãe. A irmã mais velha de uma mulher chamada Lamis, que era, se todas as evidências que tenho em mãos estiverem certas, sua verdadeira avó. Não a mulher que conheceu com esse nome na sua família.
Rima congelou no lugar.
— Isso é impossível. Minha avó morreu anos antes de eu nascer, sei disso muito bem, meu pai falava dela às vezes.
— Seu pai — disse Nabil com uma calma dolorosa — só conhecia parte da verdade, e talvez nunca a tenha conhecido por completo antes de morrer. A mulher que o criou, e que ele achou a vida inteira que fosse sua mãe verdadeira, era Salma, irmã gêmea de Lamis. Trocaram de lugar em circunstâncias muito excepcionais, em 1988, por razões que a própria Salma não imaginava que fossem durar mais do que alguns meses.
Rima sentiu a sala girar devagar ao redor dela.
— E… Anwar Hilmi?
perguntou, lembrando as letras assinadas atrás da tela.
Pela primeira vez desde que se sentara, algo de hesitação verdadeira apareceu no rosto de Nabil.
— Foi o homem que pintou Lamis, naquele outono, em Damasco. Foi também…
Parou por um instante, como se recalculasse o que devia ser dito agora e o que devia ser adiado.
— Foi também o motivo do desaparecimento de Lamis, em dezembro daquele mesmo ano. Ninguém mais a viu com vida depois dessa data.
Um silêncio pesado se instalou entre os dois. De longe, Clara observava a cena com evidente inquietação no rosto, incapaz de ouvir as palavras, mas vendo claramente que algo grave se revelava naquela mesa.
— Então Salma, que criou meu pai, é a mesma que…
Rima não conseguiu terminar a frase.
— Não sei os detalhes completos do que aconteceu com Lamis, nem o papel real de Salma naquilo. É exatamente isso que Wafa tentava descobrir nos últimos anos de vida, antes que a doença a alcançasse. Deixou para você um caderno de cartas, guardado em Istambul, que ela acreditava conter as respostas que buscou a vida inteira e nunca encontrou por completo.
Rima olhou para ele longamente.
— Por que você? Por que é você quem me conta tudo isso, e não o advogado, ou meu tio Kamal?
Nabil endireitou-se na cadeira e olhou ao redor com uma rapidez quase imperceptível, gesto de quem se acostumou a viver com cautela por muitos anos.
— Porque seu tio Kamal — disse por fim, em voz ainda mais baixa — é exatamente quem não quer que essa verdade venha à luz jamais. E se esforçou, ao longo de muitos anos, nada pouco, para que continuasse assim.

A LAVRA QUE AINDA NÃO FOI PINTADA

Romance

2

Nabil deixou o café depois de lhe entregar um pequeno cartão branco, sem nada além de um número de telefone escrito à mão, sem nome nem endereço. — Ligue para esse número quando chegar a Istambul, não antes. E, por favor, não conte ao advogado Ünal nada do que ouviu hoje. Deixe que ele pense que você é apenas uma parente distante vindo verificar o espólio, nada mais.
Depois se levantou, deslizou entre as mesas e desapareceu na multidão da Estação Central com uma rapidez notável, como quem conhece de cor todas as saídas daquele lugar.
Clara correu até a mesa assim que o homem sumiu de vista.
— Rima, você está pálida como cera. O que ele disse?
Rima ficou calada por instantes, procurando um ponto de partida para o que acabara de ouvir, algo que fizesse a história soar plausível quando dita em voz alta num café barulhento no centro de Viena. Por fim, contou tudo a Clara, palavra por palavra, enquanto a amiga escutava com os olhos se arregalando cada vez mais.
Quando terminou, Clara ficou em silêncio por um longo momento, depois disse em voz baixa:
— Então a mulher que criou seu pai não era sua verdadeira avó? E seu tio Kamal sabe, e esconde isso há décadas?
Rima balançou a cabeça devagar, incapaz de pronunciar mais palavras naquele instante.
— Rima, você não pode acreditar em cada palavra de um homem estranho que acabou de conhecer. Talvez esteja mentindo. Talvez tenha um interesse oculto que você desconhece.
— Eu sei disso — disse Rima por fim. — Mas a fotografia na casa de leilões, o nome de Wafa, a data escrita atrás da tela… nenhum desses detalhes pode ser pura invenção. Há um fio verdadeiro aqui, mesmo que o homem não seja sincero em cada detalhe.

A caminho de casa, Rima passou de novo pelo museu e desceu ao arquivo no subsolo, onde se guardavam catálogos de antigas exposições e registros de intercâmbio cultural com outros museus ao longo de décadas. A arquivista responsável, uma senhora idosa chamada Frau Vertile, conhecia bem Rima de suas visitas de pesquisa repetidas ao longo dos anos.
— Estou procurando qualquer menção a um pintor sírio chamado Anwar Hilmi, talvez uma exposição planejada no fim dos anos oitenta — disse Rima, tentando fazer a pergunta soar como uma pesquisa acadêmica de rotina.
A arquivista vasculhou seus computadores antigos e seus registros de papel por mais de meia hora, até voltar com uma pasta fina e empoeirada.
— Achei uma única coisa — disse, abrindo a pasta numa página específica. — Uma correspondência entre nosso museu e um instituto cultural em Damasco, datada de novembro de 1987, tratando dos preparativos para uma exposição conjunta de um jovem artista promissor, chamado Anwar Hilmi, que estava prevista para acontecer em Viena na primavera de 1988. Mas a correspondência para de repente depois disso, sem explicação alguma. Não há nenhuma menção posterior à exposição, nem ao seu cancelamento, como se o processo simplesmente tivesse sido fechado e nunca reaberto.
Rima olhou a data da última carta na pasta: doze de dezembro de 1987.
O mesmo mês que Nabil mencionara exatamente, o mês em que Lamis desaparecera.
— Posso fotografar essas páginas? — perguntou, a voz quase sufocada.
A arquivista concordou sem hesitar, sem perceber o peso que aquelas folhas amareladas carregavam para a mulher parada à sua frente.

Naquela noite, Rima sentou-se no apartamento diante do laptop, a página de reserva de passagens aberta à sua frente, o dedo hesitando sobre o botão de confirmação.
Viena–Istambul, voo matinal em dois dias.
Olhou para a tela pendurada no canto do quarto, para o rosto de Lamis que era exatamente o seu, e sentiu por um instante que os olhos pintados a encorajavam em silêncio a seguir em frente, apesar de todos os avisos, apesar do perigo indefinido que começava a se desenhar no horizonte.
Pensou no tio Kamal, em todas aquelas breves ligações ao longo dos anos, naquela distância que sempre atribuíra a um simples excesso de ocupação de homem de negócios — e agora, à luz do que ouvira de Nabil, aquela distância ganhava um sentido novo e inquietante: um homem que carrega um segredo pesado, que mantém espaço entre si e ela porque teme que um dia ela descubra o que esconde.
Apertou o botão de confirmação por fim. A tela vibrou com a mensagem verde de reserva confirmada.
Antes de desligar o computador, hesitou por um instante, depois abriu a lista de contatos do celular, e o dedo ficou suspenso sobre o nome “Tio Kamal” por longo tempo. Lembrou do primeiro aviso de Nabil: “Não ligue para o seu tio Kamal sobre isso agora.” Mas sentiu também que o silêncio completo em relação a ele, justo quando estava prestes a viajar a Istambul para rastrear um segredo que dizia respeito a ele próprio, soava como uma espécie de traição — ainda que ele tivesse sido o primeiro a trair sua confiança, escondendo a verdade todos aqueles anos.
No fim, desligou o celular sem ligar, e escolheu em vez disso escrever uma mensagem curta, suficientemente neutra para não despertar suspeitas:
“Tio Kamal, vou viajar a Istambul por alguns dias, a trabalho do museu. Só queria que soubesse.”
A resposta chegou poucos minutos depois, mais rápido do que ele costumava responder:
“Istambul? Por qual motivo exatamente? Está tudo bem, Rima?”
Leu a mensagem duas vezes, sentindo o tom escrito com olhos de quem procura sinais de preocupação verdadeira por trás de palavras neutras. Pela primeira vez na vida, sentiu que não lia apenas uma mensagem de seu tio distante e ocupado, mas de um homem tentando, com sua educação calma de sempre, saber exatamente quanto ela sabia, e até onde havia chegado.
Escreveu uma resposta breve:
“Está tudo bem. Ligo quando voltar.”
Depois desligou o celular por completo, e guardou-o na gaveta longe da cama, como se quisesse colocar uma distância, ainda que simbólica, entre ela e a voz daquele homem que, pela primeira vez na vida, começava a se perguntar se realmente conhecia.

O avião pousou no aeroporto de Istambul ao meio-dia, sob um céu levemente cinzento anunciando uma chuva que ainda não caíra. Da janela do táxi, Rima observou a cidade se desdobrar diante dela: minaretes esguios pontuando o horizonte, prédios amontoados sobre colinas entrelaçadas, e casas antigas de madeira aqui e ali resistindo com teimosia serena ao avanço da modernidade. Nunca tinha ido a Istambul antes, e sentiu por um instante estranho que se aproximava de algo parecido a um limiar — uma cidade que não era a Damasco de que mal se lembrava, nem a Viena onde vivera toda a vida consciente, mas uma estação intermediária, como se o destino a tivesse escolhido de propósito para ser a porta pela qual atravessaria entre duas vidas.
Instalou-se num pequeno hotel no bairro de Nişantaşı, perto do escritório do advogado Ünal. Ligou para o escritório assim que chegou, e marcaram uma reunião para a manhã seguinte.
Antes de ligar para o número que Nabil lhe dera, sentou-se na beira da cama do hotel por longo tempo, tentando acalmar as batidas do coração. Por fim, apertou o botão de chamada.
Ele atendeu logo no primeiro toque, como se estivesse esperando com o telefone na mão.
— Chegou bem, então. Ótimo.
Fez uma pausa, depois acrescentou:
— O advogado Ünal é um homem íntegro, não se preocupe com relação a ele, mas não sabe nada da história completa, e é melhor que continue assim. Ele lida com o espólio de Wafa apenas em sua capacidade jurídica pura.
— E você? — perguntou Rima. — Vai à reunião comigo?
— Não. Mas estarei por perto. Ligue assim que a reunião terminar.

O escritório do advogado Ünal Demir ficava no terceiro andar de um elegante prédio antigo, os móveis de madeira escura sugerindo que nada ali havia mudado em décadas. Recebeu-a um homem no fim dos cinquenta, elegante num terno cinza, óculos de armação grossa.
— Senhorita Najjar, é uma honra. Por favor, sente-se.
Indicou uma cadeira diante de sua mesa, carregada de papéis organizados com cuidado.
— A senhora Veronika, da casa de leilões, me contou que a senhora tem interesse em saber mais sobre o espólio da senhora Wafa Najjar.
— Sim — disse Rima, escolhendo as palavras com extremo cuidado, como Nabil a aconselhara. — Meu sobrenome também é Najjar, e pensei que pudesse haver algum parentesco distante. Só quero entender um pouco melhor a história da senhora Wafa, se possível.
O advogado abriu uma pasta espessa diante de si.
— A senhora Wafa Najjar viveu em Istambul desde o fim dos anos oitenta, depois de deixar Damasco em circunstâncias que, ao que sei, nunca revelou a ninguém, e trabalhou por muitos anos no comércio de antiguidades e peças de arte. Nunca se casou, não teve filhos. Manteve contato muito limitado com sua família na Síria, e, nos últimos anos de vida, adoeceu gravemente, passando a maior parte do tempo organizando seus assuntos pessoais e seus bens.
— Ela deixou um testamento específico? — perguntou Rima. — Já que não tinha herdeiros diretos.
O advogado assentiu devagar.
— Esta é a parte incomum do caso, senhorita Najjar. Deixou a maior parte para uma instituição de caridade, mas reservou um item específico para quem descreveu como “os possíveis herdeiros, se existirem e se apresentarem dentro de cinco anos de sua morte”: um caderno de cartas pessoais, guardado num cofre num banco aqui em Istambul, com instruções rígidas de que só fosse aberto por quem comprovasse ligação com o nome especificado em seu testamento.
Rima sentiu o coração acelerar.
— E qual é esse nome?
O advogado olhou-a diretamente, e em seus olhos havia um traço de curiosidade profissional contida.
— A senhora Wafa escreveu em seu testamento: “Para a única neta de Lamis Najjar, seja qual for o nome com que tenha crescido, seja qual for o país onde tenha vivido. Ela se reconhecerá quando vir o rosto no caderno de cartas.”
Um longo silêncio se instalou no escritório. O advogado observava Rima com atenção precisa, como se percebesse só naquele instante que a mulher sentada diante dele talvez não fosse apenas uma visitante curiosa com um sobrenome parecido.
— Eu sou Lamis… quer dizer, minha avó se chama Lamis — disse Rima por fim, sentindo as palavras saírem de sua boca com uma dificuldade estranha, como quem pronuncia um nome que, até poucos dias atrás, nem sabia que lhe pertencia.
O advogado recostou-se na cadeira, olhando-a longamente.
— Então vamos ao banco agora mesmo, senhorita Najjar. Acho que temos muitos documentos a resolver, e um caderno que a espera há anos.

Os trâmites no banco levaram duas horas inteiras: verificação de identidade, assinaturas em incontáveis documentos, ligações com a matriz para confirmar a validade do testamento. Por fim, Rima se viu sozinha numa pequena sala reservada para abertura de cofres, diante de uma caixa metálica retangular.
Abriu-a com as mãos trêmulas. Lá dentro, um caderno de couro espesso, a capa marrom desgastada nas bordas, e sobre ele, guardada entre duas páginas no início do caderno, uma pequena fotografia em preto e branco.
Ergueu a foto com extremo cuidado. Era uma mulher jovem, talvez no fim dos vinte anos, de pé diante de um ateliê de arte, a julgar pelas telas espalhadas atrás dela, sorrindo um sorriso verdadeiro, completo, bem diferente da expressão inquieta que Rima vira na tela que lhe fora enviada. Ao lado da foto, de pé junto a ela, um homem magro segurando um pincel na mão, olhando para ela, não para a câmera, com um olhar cuja natureza dispensava grandes explicações.
No verso da foto, numa caligrafia feminina elegante:
“Eu e Anwar, no ateliê, verão de 1987. Antes que tudo mudasse.”
Rima sentou-se naquela salinha fria, encarando o rosto da mulher que era sua avó, e sentiu pela primeira vez na vida que olhava para algo parecido de verdade com um espelho, um espelho que atravessa o tempo, não só o espaço, e volta para ela com um rosto que carrega todos os seus traços, mas que carrega também uma vida inteira que ela não viveu, um amor que não conheceu, e um fim que ainda não descobrira.
Abriu a primeira página do caderno com a mão trêmula, e começou a ler.

O caderno estava escrito numa caligrafia elegante, ligeiramente inclinada para a direita, tinta azul desbotada em algumas páginas até virar cinza-claro. Não eram cartas efetivamente enviadas, mas confissões diárias, que Lamis escrevia para si mesma, ou talvez para um leitor imaginário que nunca soube que seria sua neta, décadas depois, numa sala fria de um banco em Istambul.
Rima leu a primeira página:
“Damasco, março de 1987. Conheci-o hoje pela primeira vez, na exposição de jovens pintores que o instituto organizou. Seu nome ainda não era conhecido fora de um pequeno círculo de artistas, mas o quadro dele pendurado no canto mais afastado do salão me deteve no lugar sem que eu quisesse. Ele estava atrás de mim quando o ouvi dizer: ‘Você é a única pessoa que ficou parada diante dela por mais de um minuto.’ Chama-se Anwar. Um pintor pobre, teimoso, o rosto carregando o cansaço de muitas noites de trabalho sem sono suficiente.”
Rima parou por um instante, imaginando a cena: uma sala de exposições em Damasco, em 1987, uma jovem parada diante de um quadro, e um homem se apresentando com uma frase que ela não sabia, naquele dia, que carregaria todo o peso da história depois.
Continuou lendo, passando por páginas onde Lamis escrevia sobre suas visitas repetidas ao pequeno ateliê de Anwar no bairro de Qaymariyya, sobre o chá que tomavam no telhado do prédio enquanto observavam o sol se pôr atrás da Mesquita Omíada, sobre longas conversas a respeito de arte e política e do país com que sonhavam e que ainda não existia.
“Setembro de 1987. Minha irmã Salma diz que estou agindo com imprudência, que Anwar não é o homem que nossa família imagina para mim. Talvez tenha razão. Mas nunca senti o que sinto quando estou naquele ateliê, entre o cheiro das tintas a óleo e sua voz calma explicando por que escolheu esta cor em vez daquela para preencher uma pequena sombra no canto de um quadro. Salma, minha gêmea, me conhece mais do que qualquer pessoa na face da terra, mas não entende esse sentimento em particular, e talvez nunca venha a entender.”
Rima sentiu um arrepio ao ver o nome de Salma mencionado pela primeira vez pela própria letra de Lamis, não pela narrativa de Nabil. Era verdade, então, tudo aquele detalhe que a princípio parecera uma história impossível.
Continuou a leitura por uma hora inteira, passando por páginas que carregavam uma alegria serena e outras que carregavam uma angústia crescente. Lamis escrevia sobre sua família, que começara a pressioná-la a se casar com outro homem, de uma família rica e influente, escolhido por seu pai anos antes sem realmente consultá-la. Escrevia sobre seu medo crescente, e ao mesmo tempo sobre sua insistência em não abandonar Anwar apesar de toda a pressão.
Então chegou a uma página datada do fim de novembro, a caligrafia mais agitada que em todas as páginas anteriores:
“Novembro de 1987. Hoje aconteceu o que eu temia. Meu pai soube de Anwar, e de que a exposição que estava prevista para ele em Viena talvez nos levasse a casar e a deixar o país juntos. Teve uma fúria como nunca vi nele antes. Disse que ‘um homem sem linhagem nem dinheiro nunca levará o nome da nossa família’, e que Anwar tem ‘ligações suspeitas’ que não me detalhou, insinuando que o homem tem relações com pessoas que criticam abertamente o poder em seus quadros e em seus escritos particulares, e que isso sozinho bastaria para destruir a família inteira caso minha relação com ele continuasse visível a todos. Salma ficou ao meu lado diante do meu pai, mas vi em seus olhos algo que não entendi naquele momento: um medo que não era só por mim, mas medo de outra coisa, maior, que ela ainda não estava pronta para compartilhar comigo.”
Rima ficou longamente diante daquela última frase. “Um medo que não era só por mim.” Havia algo mais sob a superfície, algo que a própria Lamis não percebia com clareza quando escreveu aquelas palavras.
Virou as páginas com mais rapidez agora, movida por uma urgência que beirava o pânico, buscando as últimas páginas, o que acontecera em dezembro. Mas encontrou o caderno terminar de repente numa página datada de oito de dezembro de 1987, bem mais curta que as demais, a caligrafia acelerada, como se ela tivesse escrito às pressas num momento de medo verdadeiro:
“Não tenho tempo para detalhes. Anwar diz que precisamos partir antes do fim do mês, que há quem o esteja vigiando, e que já não é seguro nem para ele nem para mim. Salma me propôs ontem um plano insano, eu não imaginava que ela fosse tão longe por mim. Escreverei mais quando…”
A última frase ficava incompleta, cortada no meio como se uma mão tivesse arrancado a caneta da mão de Lamis naquele exato instante, ou como se ela nunca mais tivesse conseguido continuar a escrever depois daquele dia.
O resto das páginas do caderno permanecia completamente em branco.
Rima ficou sentada em silêncio prolongado, o caderno aberto naquela última página sobre o colo, e sentiu lágrimas se acumularem nos olhos por uma mulher que jamais conhecera, mas que de repente sentia conhecer mais do que qualquer outra pessoa em sua vida — talvez porque via naquelas palavras confusas e apressadas algo de si mesma, um medo que conhecia bem, e uma insistência em amar apesar de todos os avisos que se assemelhava de um jeito inquietante à sua própria insistência agora em seguir esse enigma apesar de todos que a advertiram para parar.
“Um plano insano.” Rima releu aquela frase várias vezes.
O que exatamente Salma fizera? E como ela terminou, a própria irmã gêmea de Lamis, criando um filho que carregava em suas veias o sangue da irmã e não o dela, vivendo o resto da vida fingindo ser sua verdadeira mãe?
Fechou o caderno com extremo cuidado, apertou-o contra o peito por um instante, depois pegou o celular e ligou para Nabil imediatamente, como prometera.
— Então achou o caderno — disse ele assim que atendeu, não como pergunta, mas como afirmação. — As cartas param de repente, não é? No dia oito de dezembro.
— Como você sabe disso com tanta exatidão?
— Porque a própria Wafa me contou, repetidas vezes, nos últimos anos de vida. Tentou até o último dia entender o que aconteceu depois daquela data exata. Nunca conseguiu. Mas deixou comigo, poucas semanas antes de morrer, um único endereço em Damasco, uma mulher idosa ainda viva, talvez a última pessoa a saber algo verdadeiro sobre o que houve naqueles últimos dias.
Rima sentiu o coração acelerar de novo, mas desta vez não era só medo, era algo mais parecido com inevitabilidade.
— Damasco, então.
— Sim — disse Nabil, calmo. — Acho que você já sabe disso desde o início, mesmo antes de nos encontrarmos em Viena. Todo fio nessa história leva, no fim, a um único lugar.

Rima voltou ao quarto do hotel em Istambul, e a decisão de viajar a Damasco, que até poucas horas atrás fora apenas uma ideia vaga oscilando em sua mente, tornou-se uma realidade inescapável. Sentou-se na beira da cama, encarando o passaporte austríaco aberto diante dela, e pensou por um instante numa estranha ironia: voltaria à cidade onde nascera como turista estrangeira, portando um passaporte que aparentemente nada tinha a ver com ela, procurando raízes cuja forma verdadeira nem sequer conhecia.
Ligou para Clara para contar o que descobrira no caderno, e sua nova decisão. Clara ficou em silêncio longo do outro lado da linha, depois falou com uma voz carregada de preocupação genuína:
— Damasco, Rima? Justo agora? Você sabe que a situação lá não é simples, e que não conhece ninguém de verdade por lá, nem sequer o dialeto local com fluência completa.
— Conheço bem o árabe culto, e um pouco do dialeto que aprendi com meu tio ao longo dos anos. Vou ser cuidadosa, prometo.
— E o Nabil? Ele vai com você?
— Ainda não sei. Ele não disse claramente.
Depois de encerrar a ligação, telefonou para Nabil novamente.
— Quero ir ao endereço que Wafa deixou. Você vai me ajudar?
Um breve silêncio do outro lado.
— Vou lhe mandar o endereço, e o nome da mulher: Khadija. Era vizinha da família Najjar no bairro de Sha’ghour por muitos anos, e ainda mora na mesma casa, segundo minhas últimas informações. Mas não poderei acompanhá-la, senhorita Najjar. Minha entrada na Síria… é complicada, por razões que não posso detalhar agora.
— Então vou sozinha.
— Sei que já decidiu isso, e não vou tentar dissuadi-la. Mas, por favor, seja muito cuidadosa, e evite mencionar o nome do seu tio Kamal a quem quer que seja por lá. A família Najjar ainda tem relações amplas em Damasco, e ninguém sabe ao certo quem conta o quê a quem.

Antes de deixar Istambul, o celular tocou com uma chamada que ela não esperava: seu tio Kamal.
Hesitou por um instante antes de atender, depois decidiu que ignorar a ligação despertaria mais suspeitas do que acalmaria.
— Alô, tio Kamal.
— Rima! Finalmente. Tentei ligar várias vezes. Como você está em Istambul? Que trabalho é esse que a levou até lá exatamente?
Sua voz carregava o tom cordial de sempre, mas Rima, pela primeira vez na vida, escutou além do tom, a leve tensão que se escondia atrás de cada palavra.
— Um trabalho relacionado a uma peça de arte que chegou ao museu — disse, escolhendo uma mentira branca suficientemente próxima da verdade para soar convincente. — Investigação sobre a origem de uma tela antiga, nada muito interessante.
— Entendi.
Fez uma pausa curta, depois acrescentou num tom cauteloso:
— E vai ficar em Istambul, ou tem outros planos?
Rima sentiu que a pergunta não era tão inocente quanto parecia, e que carregava por trás uma preocupação real que ele tentava esconder com cuidado.
— Ainda não sei — disse, evitando a resposta direta. — Talvez me estenda a outro lugar, se a necessidade profissional exigir.
Um silêncio se instalou na linha por longos segundos, depois Kamal falou, com uma voz mais baixa do que antes, e um tom que ela nunca tinha ouvido nele:
— Rima, seja lá o que você esteja pensando em fazer, quero que saiba de uma coisa: tudo o que fiz, ou deixei de fazer, ao longo de todos esses anos, foi por proteger você, nada mais. Por favor, confie nisso, mesmo que ainda não entenda tudo.
Rima congelou no lugar.
Ele nunca dissera algo com essa clareza inquietante antes, nunca reconhecera abertamente a existência de algo que precisava ser “entendido”… para começo de conversa.
— Tio Kamal, o que exatamente você quer dizer? — perguntou diretamente, sentindo que talvez fosse o momento mais próximo em que já estivera de uma confissão completa.
Mas ele recuou de imediato, como se percebesse que ultrapassara um limite que não pretendia ultrapassar.
— Nada específico, só… cuide-se, é tudo o que quero dizer. Ligue quando se instalar em qualquer lugar que for.
E desligou antes que ela pudesse fazer qualquer outra pergunta.
Rima ficou encarando o celular silencioso na mão, repassando na cabeça cada palavra que o tio dissera, sentindo que acabara de chegar à beira de algo bem maior do que imaginava, algo que fazia um homem conhecido por sua frieza e sua calma constante escorregar, ainda que por um único instante, para algo parecido com uma confissão.

Na manhã seguinte, Rima ficou na fila de embarque no aeroporto de Istambul, esperando para subir no avião com destino a Damasco. Carregava na bolsa de mão o caderno de couro de Lamis, embrulhado com extremo cuidado, e a pequena fotografia, e deixara a tela original em Viena, num armário trancado no apartamento de Clara, depois que as duas concordaram que levá-la a Damasco seria um risco desnecessário.
Enquanto esperava na fila, sentiu um olhar fixo em suas costas, aquele mesmo olhar que já começava a reconhecer por instinto, agora atenta a todos ao seu redor. Virou-se rapidamente, mas não encontrou senão rostos passageiros que não conhecia, passageiros ocupados com bagagens e celulares.
Talvez fosse apenas uma ilusão, resultado de dias tensos e sono escasso. Ou talvez, como começava a suspeitar cada vez mais profundamente, ela não estivesse mesmo sozinha nesse caminho desde o início, como o próprio Nabil dissera em sua primeira noite juntos.
Quando anunciaram o embarque, Rima caminhou até o portão com passos firmes apesar de tudo, ciente de que estava prestes a atravessar um limiar depois do qual sua vida jamais seria a mesma.

De milhares de pés de altura, Damasco surgiu para Rima como uma mancha dourada espalhada na encosta de uma montanha nua, o centro pontuado por um verde suave que todo sírio sabe ser a Ghouta, mesmo quem nunca a viu com os próprios olhos. Encostou a testa no vidro frio da janela, e sentiu algo se mover em seu íntimo como nunca sentira antes — não exatamente uma lembrança, mas algo mais antigo que a lembrança, como se seu corpo reconhecesse aquele lugar antes que sua mente o fizesse.
No portão do aeroporto, ficou numa fila longa para inspeção e carimbo de passaporte, observando os rostos à sua volta: famílias voltando de viagem, homens carregando bagagens cansadas, crianças correndo entre as pernas rindo apesar do cansaço evidente nos rostos de seus pais. O oficial de imigração perguntou o motivo de sua visita, e ela respondeu ser uma turista de nacionalidade austríaca vindo conhecer os pontos históricos da cidade velha, sentindo uma leve amargura ao pronunciar aquelas palavras, pois não passavam de meia mentira: como podia ser chamada de “turista” numa cidade onde havia nascido?
Pegou um táxi rumo a um pequeno hotel que escolhera no bairro de Qaymariyya, relativamente perto do endereço que Nabil lhe dera. Da janela do carro, a cidade foi se revelando pouco a pouco: ruas estreitas entrelaçadas numa desordem que carregava sua própria lógica, mercados apinhados exalando cheiros de especiarias e café torrado, muros de pedra antigos carregando marcas de séculos de história empilhados uns sobre os outros sem ordem aparente.
Depois, numa curva repentina, o carro passou junto a um muro de pedra antigo onde trepava um pé de jasmim denso, seu perfume se infiltrando até pela janela fechada do carro.
Rima congelou no assento.
Era exatamente o mesmo cheiro, aquele que tantas vezes visitara nos fragmentos dispersos de suas lembranças, de um pátio de que já não se lembrava bem a forma. Fechou os olhos por um instante, e voltou a mesma imagem que a visitara em Viena na noite em que a tela chegou: um pátio pequeno pavimentado de pedra branca, duas mulheres sentadas num banco de madeira, uma segurando sua mãozinha.
Mas a imagem, desta vez, era mais nítida do que jamais fora, como se seu retorno físico à cidade tivesse afiado de novo as bordas daquela lembrança distante. Viu a segunda mulher, sentada um pouco atrás delas na sombra, mover-se por um instante, e virar a cabeça na sua direção bem devagar, como se estivesse prestes a mostrar o rosto por fim, depois de todos aqueles anos de mistério…
Então o carro sacudiu ao passar por um buraco na estrada, e Rima voltou ao presente de repente, o coração batendo com violência, as mãos suadas sobre a bolsa.
— A senhora está bem? — perguntou o motorista pelo espelho, notando a palidez repentina em seu rosto.
— Sim, desculpe, minha mente vagou um pouco — disse, tentando soar natural.

Depois de se instalar no hotel e tomar um banho rápido para sacudir o cansaço da viagem, Rima saiu para caminhar sozinha pela cidade velha antes de fazer sua primeira visita à casa de Khadija no bairro de Sha’ghour, decidindo se dar um tempo para se recuperar da inquietação que a invadira no carro.
Caminhou pelo mercado coberto de Al-Hamidiyya, em meio a um tumulto barulhento de vendedores, compradores e turistas locais, sob um teto metálico antigo por cujos buracos se infiltravam finos fios de luz que pareciam estrelas espalhadas num dia de luz plena. Parou por um minuto diante das bancas de doces e artigos de cobre, lembrando a descrição da primeira tela com que toda aquela jornada começara — um retrato flamengo de uma mulher esperando uma carta que nunca chegou — e sentiu uma leve ironia do destino: ali estava ela também esperando cartas, mas desta vez tentando obrigar o próprio destino a entregá-las com as próprias mãos.
Seguiu caminho até chegar à praça da Mesquita Omíada, e ficou longamente contemplando os dois minaretes erguidos no céu azul limpo. Lembrou de uma linha do caderno de Lamis: “O chá no telhado do prédio enquanto observávamos o sol se pôr atrás da Mesquita Omíada.” Olhou ao redor para os telhados vizinhos, perguntando-se qual deles teria sido o telhado do ateliê de Anwar, aquele lugar que testemunhara o início de uma história que terminara, ou talvez ainda não tivesse terminado, entrelaçada de um jeito estranho ao longo de trinta anos até chegar a ela mesma, naquele exato instante.
E enquanto ficava ali parada, sentiu uma mão leve tocar seu ombro.
Virou-se rapidamente, o coração saltando no peito, e encontrou diante dela uma mulher idosa, vestindo uma abaya preta simples e um véu branco na cabeça, o rosto marcado por rugas profundas que carregavam a sabedoria de longos anos, encarando-a com um olhar fixo que Rima não podia confundir: o olhar de quem vê um rosto que conhece bem, num lugar onde não deveria estar.
— Meu Deus — sussurrou a velha em árabe, a mão tremendo ao erguê-la para tocar de leve o rosto de Rima, como se conferisse se o que via era real e não fantasia. — Lamis? Pode ser mesmo você? Depois de todos esses longos anos?

Rima ficou muda por um instante, incapaz de encontrar palavras para um momento que nunca imaginara viver: uma mulher completamente desconhecida na praça da Mesquita Omíada chamando-a pelo nome de sua avó falecida, como se trinta anos não tivessem passado.
— Não sou Lamis — disse por fim, a voz tremendo apesar do esforço para manter a calma. — Meu nome é Rima. Rima Najjar. Acho que Lamis… era minha avó.
A idosa olhou-a longamente, os olhos se enchendo de lágrimas ainda não derramadas, depois cobriu a boca com as mãos por um instante, como quem contém um soluço prestes a irromper.
— Claro, claro, minha filha, como eu poderia esquecer? Lamis partiu há muito, muito tempo, sei disso bem, mas seu rosto… seu rosto me trouxe de volta de repente a dias que eu pensava ter enterrado junto com minha memória para sempre.
Enxugou os olhos com a barra da abaya preta.
— Sou Khadija, minha filha. Fui vizinha da sua família no bairro de Sha’ghour por muitos anos.
Rima sentiu um arrepio percorrer o corpo inteiro.
— Khadija? Você… você é exatamente quem eu pretendia visitar hoje!
Tirou da bolsa o pequeno papel onde Nabil escrevera o endereço.
— Como… como nos encontramos aqui, exatamente, nesta praça, sem marcar hora?
Khadija sorriu um sorriso estranho e triste.
— Não há coincidências nesta cidade velha, minha filha, acredito nisso há muito tempo. Passo por aqui todo dia neste horário exato, a caminho da oração da tarde, há mais de trinta anos. Talvez o destino estivesse esperando exatamente este momento para nos aproximar.
Segurou a mão de Rima com uma ternura que ela não sentia de ninguém havia muito tempo.
— Venha comigo até em casa, por favor. Tenho muito a lhe contar, e acho que você veio de muito longe para ouvir.

A casa de Khadija no bairro de Sha’ghour era uma casa damascena tradicional, com um pequeno pátio interno onde havia uma pequena fonte de pedra seca havia anos, e limoeiros dando sombra a um canto. Sentaram-se em bancos estofados perto da fonte, enquanto a filha jovem de Khadija trazia uma bandeja de chá e doces.
— A família de vocês morava bem ao lado — começou Khadija sua fala, os olhos perdidos numa lembrança distante. — Eu tinha mais ou menos a idade de Lamis e Salma, éramos amigas desde a infância, brincávamos juntas neste mesmo pátio onde você está sentada agora.
Parou para sorver um gole de chá, como quem reúne coragem para continuar.
— Eram parecidíssimas a ponto de espantar, Lamis e Salma, mas eram completamente diferentes por dentro. Lamis era sonhadora, corajosa quase a ponto da imprudência, amava desenho e poesia e tudo que fugisse do comum. Salma, ao contrário, era prática, cautelosa, amava a irmã até a loucura, mas sempre temia por ela mais do que devia.
— E Anwar? — perguntou Rima, incapaz de esperar mais.
O rosto de Khadija escureceu de repente.
— Anwar Hilmi, sim. Um pintor talentoso, mas também um jovem que não temia dizer o que pensava, mesmo numa época em que o silêncio era mais seguro que a fala. Reunia-se com um pequeno grupo de amigos, escritores e artistas jovens, para conversar sobre mudança, sobre liberdade, sobre coisas que despertavam a ira de quem não gostava de ouvir essas palavras naqueles dias.
Pousou a xícara de chá na mesinha com um gesto lento e pesado.
— O pai de Lamis e Salma, Abu Khalid, era um homem de posição e relações, e temia que o envolvimento da filha com Anwar chamasse a atenção dos órgãos de segurança para a família inteira. Tentou de tudo para acabar com a relação: ameaça, depois a sedução de outro casamento, depois ameaça de novo, dessa vez de forma mais grave.
— O que aconteceu exatamente em dezembro? — perguntou Rima, a voz quase sufocada. — Li no caderno de Lamis que ela pretendia fugir com Anwar, e que Salma propôs um plano… mas o caderno para de repente ali.
Khadija olhou para Rima por um longo tempo, o rosto carregando um conflito interno evidente, como quem decide, depois de trinta anos de silêncio, se finalmente chegou a hora de falar. Por fim, respirou fundo.
— Na noite de dezoito de dezembro — disse com uma voz baixa que mal passava de um sussurro —, Lamis devia fugir com Anwar para Beirute, e de lá para a Europa, onde a exposição dele em Viena lhes daria um motivo aparente aceitável para viajar. Salma, que se parecia com ela exatamente, propôs ficar em Damasco, assumindo a identidade da irmã por poucos dias apenas, até terem certeza de que Lamis chegara em segurança e de que ninguém notara sua ausência de imediato, para confundir qualquer tentativa de perseguição.
Khadija parou por um instante, os olhos se enchendo de lágrimas verdadeiras desta vez.
— Mas alguém suspeitou de algo. Homens vieram no meio da noite à casa da família, perguntando por Lamis pelo nome, e encontraram Salma em seu lugar, e acreditaram, ainda que por poucas horas apenas, que tinham capturado a mulher que procuravam.
— O que fizeram com ela? — sussurrou Rima, sentindo que estava prestes a ouvir a parte mais perigosa de toda a história.
— Detiveram-na por dois dias inteiros — disse Khadija, a voz se quebrando aos poucos. — Antes de descobrirem o engano e a soltarem. Mas ela saiu daquelas duas noites uma mulher completamente diferente da moça que conheci a vida inteira. E quando soube que Lamis nunca chegara a Beirute, e que Anwar também desaparecera no caminho, algo dentro de Salma se quebrou, e nunca mais voltou ao lugar.

Um longo silêncio se instalou no pátio, quebrado apenas pelo farfalhar das folhas do limoeiro numa brisa leve. Rima sentia o coração bater na garganta, não no peito, e que o mundo inteiro se reduzira àquele pequeno pátio, àquela fonte seca, e àquela voz quebrada narrando pela primeira vez a história verdadeira de sua família.
— Continue, por favor — sussurrou Rima. — Quero saber tudo, por mais difícil que seja.
Khadija soltou um suspiro longo, como quem esvazia dos pulmões o peso de anos.
— Nunca soubemos os detalhes completos do que aconteceu com Lamis e Anwar naquela noite, e ninguém no bairro os conhece até hoje com certeza absoluta. O que sabemos apenas, pelo que vazou depois através de pessoas que trabalhavam naquele mesmo órgão, é que os dois foram detidos num posto de controle na estrada de Beirute, apenas uma hora antes de chegarem à fronteira. O carro carregava telas e materiais artísticos para a exposição de Anwar, e isso sozinho bastou para despertar suspeitas.
— E depois? — perguntou Rima, ainda que a voz desejasse não ouvir a resposta ao mesmo tempo.
— Os dois foram detidos — disse Khadija. — Mas não sei exatamente para onde os levaram, nem quanto tempo durou a detenção. O que chegou até nós foram relatos contraditórios ao longo dos anos: alguns diziam que os dois foram soltos depois de semanas, e deixaram o país secretamente de algum modo, sem se atreverem a contatar ninguém por medo de expor a família a mais dano. Outros dizem que Anwar nunca foi solto, e que seu destino permaneceu totalmente desconhecido.
Rima olhou para o rosto de Khadija, buscando nele uma resposta que a idosa não ousava dizer abertamente.
— E você, no íntimo, em qual das duas versões acredita?
Khadija baixou a cabeça por longo tempo, depois a ergueu por fim, e em seus olhos havia algo parecido com um pedido de desculpas.
— Acredito que um dos dois sobreviveu, minha filha. Senão, como explicar uma notícia que chegou ao pai de Lamis, Abu Khalid, poucos meses depois de seu desaparecimento: de que sua filha estava viva, mas que jamais voltaria, e que a família deveria esquecê-la por completo, por sua própria segurança e pela de todos.
Rima sentiu lágrimas quentes escorrerem pelo rosto sem perceber quando começara a chorar.
— Então talvez ainda esteja viva? Talvez em algum lugar?
Khadija estendeu a mão e segurou a de Rima com carinho.
— Depois de trinta anos, minha filha, se ainda estiver viva, deve ter hoje quase a minha idade. Não sei se algum dia teve coragem de contatar alguém, ou se ainda vive com medo até hoje. Mas de uma coisa tenho certeza: Wafa, a outra irmã de Salma e Lamis, que se mudou para Istambul anos depois, acreditava na mesma coisa, e passou a vida inteira tentando encontrar algum vestígio, qualquer vestígio, que provasse ou refutasse essa possibilidade.

A LAVRA QUE AINDA NÃO FOI PINTADA

Romance

3

— E Salma? — perguntou Rima depois de um longo silêncio. — Como ela terminou vivendo o resto da vida se passando pela irmã?
Khadija voltou a sorver um gole do chá, já completamente frio na xícara.
— Depois que Lamis desapareceu, a família inteira desmoronou. Abu Khalid, que achava estar protegendo a família ao impedir o casamento da filha com quem ela amava, viu-se tendo perdido essa mesma filha para sempre, e passou o resto da vida carregando essa culpa como uma pedra sobre o peito. A mãe delas adoeceu poucos meses depois, de tristeza, sem dúvida, e morreu em menos de dois anos.
— E Salma ficou sozinha — continuou Khadija —, carregando o nome da irmã que assumira por apenas alguns dias, sem saber mais como abandoná-lo depois que já era tarde demais. As pessoas do bairro, que não conheciam os detalhes completos, já haviam se acostumado à ideia de que “Lamis” era quem ficara, e “Salma” era quem fugira e desaparecera em circunstâncias misteriosas. Corrigir isso significaria reabrir o processo inteiro, e expor o resto da família a um novo perigo que ninguém estava pronto para suportar.
— E quando ela se casou, e teve meu pai… — disse Rima, sentindo as peças finalmente se encaixarem no lugar certo. — Ela já carregava o nome de “Lamis” em todos os documentos oficiais.
Khadija assentiu com profunda tristeza.
— Exatamente, minha filha. Casou-se com o nome da irmã, teve filhos com o nome da irmã, e morreu com o nome da irmã no fim, carregando um segredo mais pesado do que qualquer pessoa deveria suportar por uma vida inteira. E seu pai, que Deus o tenha, cresceu achando que sua mãe era a verdadeira Lamis, quando na verdade era sua tia quem carregava esse nome de verdade.
Rima ficou sentada em silêncio longo, tentando absorver o peso do que acabara de ouvir: que sua vida inteira, o nome que carregava, a família em que crescera, tudo fora construído sobre uma usurpação forçada que durara trinta anos, começada como um plano desesperado para poucos dias, para proteger uma irmã amada.
— Tio Kamal — disse por fim, enquanto novos fios de inquietação começavam a se entrelaçar em sua mente. — Meu pai e meu tio nasceram da própria Salma, não é? Então ele sabe de tudo isso?
Khadija olhou para ela com evidente hesitação pela primeira vez desde que começaram a conversar.
— Kamal era o mais novo, e só nasceu seis anos depois daquela noite. Não sei quando ou como soube da verdade, se é que a conhece por completo. Mas sei de uma coisa, minha filha, e sinto o dever de avisá-la: há alguns anos, veio um homem perguntando pelo bairro sobre os detalhes daquela noite, portando um cartão de visitas de uma empresa comercial em Dubai. Quando lhe perguntei para quem trabalhava, respondeu, depois de hesitar, que trabalhava para um empresário sírio chamado Kamal, tentando garantir que “ninguém suscitasse histórias antigas que pudessem manchar o nome da família”.

Rima deixou a casa de Khadija ao pôr do sol, e a cidade atrás dela mergulhava aos poucos naquela luz dourada particular pela qual Damasco é conhecida nesta hora do dia. Não sentia as próprias pernas de verdade, como se o peso do que ouvira naquelas poucas horas tivesse roubado de seu corpo qualquer sensação de realidade material imediata.
Antes de partir, Khadija lhe pediu uma única coisa: que visitasse a antiga casa da família, logo ao lado, mesmo que tivesse sido vendida havia muitos anos a outra família.
— O dono atual é um homem bom — disse Khadija. — Me conhece bem, e não vai se importar se você lhe contar que é neta da família antiga que construiu a casa.
Rima ficou diante da porta de madeira entalhada, comparando-a mentalmente com a fotografia que vira na casa de leilões em Viena: a mesma porta, exatamente, apesar das camadas de tinta nova que tentavam esconder sua idade verdadeira. Bateu à porta com hesitação, e foi recebida por um homem na casa dos cinquenta, que a acolheu com cordialidade ao saber o motivo da visita, e permitiu que entrasse e caminhasse pelo pátio que ela visitara em suas lembranças dispersas a vida inteira.
O pátio era menor do que sempre imaginara, mas era, sem dúvida, o mesmo: a pedra branca pavimentada, ainda que desgastada em alguns pontos, o muro pintado de azul-claro, ainda que a cor tivesse mudado agora para um tom ligeiramente diferente. Não encontrou o pé de jasmim que tantas vezes acompanhara sua lembrança — fora cortado havia anos, segundo lhe contou o dono da casa —, mas ficou parada no lugar onde antes estivera o banco de madeira antigo, hoje inexistente, e fechou os olhos, e por um único instante, sentiu uma mãozinha pequena e quente segurando a sua.

No caminho de volta ao hotel, já com a escuridão completa, Rima notou um carro preto avançando devagar a uma distância bem próxima atrás dela, quase na mesma velocidade em que ela caminhava pela calçada. Tentou não deixar transparecer sua preocupação, e mudou de direção de repente rumo a uma rua lateral estreita.
O carro continuou a segui-la por mais alguns metros, depois parou de súbito. Desceu dele um homem alto, vestindo um terno escuro, e aproximou-se com passos firmes.
O coração de Rima congelou no peito. Pensou por um instante em gritar, mas a rua estava quase deserta àquela hora.
— Senhorita Najjar — disse o homem num tom calmo, mas completamente frio, sem qualquer calor nele, bem diferente da voz calma e triste de Nabil. — Sua visita a Damasco chamou mais atenção do que você imagina. Aconselho fortemente que encerre esta pequena viagem, e volte a Viena, à sua vida tranquila, antes de se envolver em assuntos que não lhe dizem respeito.
— Quem é você? — perguntou Rima, tentando fazer a voz soar mais firme do que o tremor real que sentia. — E quem o mandou?
O homem sorriu um sorriso frio que não chegava aos olhos.
— Não estou aqui para me apresentar, nem para dar nomes. Estou aqui apenas para transmitir uma mensagem simples e clara: algumas portas foram fechadas por um bom motivo, há muito tempo, e quem tenta reabri-las costuma se arrepender, eles e quem eles amam.
Rima sentiu um frio verdadeiro percorrer as veias ao ouvir “quem eles amam”.
— Isso é uma ameaça?
— É um conselho, senhorita Najjar, feito com verdadeira boa vontade. Aproveite o resto de sua estadia em Damasco, visite os pontos turísticos se quiser, depois volte para casa. Não há necessidade de continuar buscando velhas histórias de família — seus verdadeiros protagonistas morreram há muito tempo, e não há vantagem alguma em perturbar seu descanso.
Então o homem se virou com calma, voltou ao carro, e o veículo se afastou pela rua escura, deixando Rima parada sozinha, o corpo inteiro tremendo agora apesar do calor da noite de primavera.

Rima voltou ao hotel quase correndo, fechou a porta do quarto atrás de si, e encostou-se nela por longos minutos, tentando acalmar a respiração entrecortada. Por fim, ligou para Nabil.
— Aconteceu uma coisa agora mesmo — disse, a voz ainda trêmula.
Contou-lhe todos os detalhes do confronto, enquanto ele escutava em silêncio absoluto do outro lado.
Quando terminou, um longo silêncio se instalou antes que Nabil falasse por fim, a voz carregando uma preocupação que ela nunca ouvira nele antes.
— Isso é mais rápido e mais perigoso do que eu esperava. Não imaginei que se moveriam com tanta pressa.
— Quem são eles? É meu tio Kamal?
— Não acho que seu tio mande homens para ameaçá-la nas ruas de Damasco à noite, Rima. Não é o estilo dele, e não é do seu interesse manchar o nome da família dessa forma tão grosseira.
Fez uma pausa, como quem pensa profundamente no que vai dizer.
— Acho que há outra parte nesta história, Rima, cuja existência ainda não conhecíamos, uma parte com um interesse muito mais profundo em manter a história de Anwar Hilmi enterrada para sempre — muito maior do que simplesmente proteger a reputação de uma única família.
— O que você quer dizer?
— Quero dizer, Rima, que você precisa deixar Damasco assim que possível, amanhã de manhã se der. E quando chegar a um lugar seguro, vou lhe contar o que realmente temo, e por que fiquei em silêncio sobre isso até agora.

Rima não dormiu naquela noite mais que poucas horas interrompidas, e de manhã cedo reservou o primeiro voo disponível saindo de Damasco — desta vez para Beirute, de onde completaria depois o caminho de volta. Sentiu um peso estranho ao deixar a cidade que, até poucos dias antes, fora apenas um nome apagado numa memória sem contornos claros, e que se tornara agora, em questão de poucos dias, um lugar que carregava todos os segredos de sua vida verdadeira.
Despediu-se de Khadija por telefone antes de deixar o hotel, e as duas choraram juntas por longos minutos — duas mulheres estranhas uma à outra até o dia anterior, agora ligadas por um laço que não se descrevia facilmente com palavras.
— Volte para mim, minha filha, quando tudo se acalmar — disse Khadija. — Damasco também é sua cidade. Não vou deixar ninguém fazer você esquecer isso.

No aeroporto de Beirute, enquanto esperava seu voo de conexão a Viena, Rima ligou para Nabil como prometera.
— Chegou bem, então — disse ele, e sua voz soou, pela primeira vez, verdadeiramente aliviada. — Agora posso lhe contar o que eu temia.
Rima sentou-se num canto tranquilo da sala de espera, e escutou com todos os sentidos alertas.
— Anwar Hilmi não morreu naquela estrada em 1987 — disse Nabil devagar, como quem escolhe cada palavra com extremo cuidado depois de longos anos de silêncio. — Foi detido por muitos meses, e tratado com uma crueldade que não quero descrever em detalhes agora. Mas um oficial graduado daquele mesmo órgão, por razões próprias que nunca revelou, decidiu salvá-lo em vez de deixar seu destino terminar como terminou o de tantos outros naqueles dias. No fim, foi libertado em segredo, mas sob uma condição irrevogável: desaparecer para sempre, abandonar por completo seu nome e sua identidade, e nunca tentar contatar Lamis ou qualquer membro de sua família, aconteça o que acontecer, pelo resto da vida.
Rima sentiu o coração parar por um instante.
— E Lamis?
— Não sei o destino dela com absoluta certeza até hoje — disse Nabil, com uma sinceridade que carregava uma tristeza real. — O próprio Anwar nunca soube o que aconteceu com ela depois daquela noite em que os separaram. Passou o resto da vida carregando essa pergunta como uma ferida que jamais cicatrizou.
— Você conhece todos esses detalhes com uma precisão impressionante, Nabil — disse Rima depois de um breve silêncio, sentindo que algo no modo como ele contava a história escondia uma verdade mais profunda do que dizia. — Muito mais do que um funcionário comum que trabalhava apenas para Wafa saberia.
Um longo silêncio se instalou na linha, mais longo que qualquer silêncio anterior entre eles.
— Porque Anwar Hilmi — disse Nabil por fim, a voz quase se quebrando — é meu pai, Rima. Passou o resto da vida sob outro nome, em outro país, casou-se depois com outra mulher e teve a mim, mas continuou até o último dia de sua vida falando de Lamis todas as noites em que achava que eu estava dormindo e não o ouvia.
Rima ficou congelada no assento, incapaz de pronunciar uma única palavra por longos segundos.
— Você… você é filho dele? Então por que não me contou isso desde o início?
— Porque meu pai morreu há apenas dois anos, Rima, e ainda carrega um nome falso até em sua certidão de óbito. E porque o mesmo oficial que salvou sua vida um dia é agora, depois de todos esses anos, um empresário muito influente, que continua vigiando de perto qualquer tentativa de reabrir esse velho processo, com medo de que os detalhes do que fez naquela época viessem à luz — tanto a parte em que salvou a vida do meu pai quanto a outra parte, bem mais sombria, da qual meu pai nunca falou abertamente nem mesmo comigo.
Rima sentiu uma pequena parte do enigma finalmente se esclarecer.
— E esse homem que me ameaçou na rua trabalha para esse ex-oficial?
— Acho que sim. E isso me apavora muito mais do que temo seu tio Kamal. Esse homem tem o poder e a influência para proteger seu segredo a qualquer custo, Rima, e já fez isso antes com outras pessoas que tentaram se aproximar da verdade ao longo dos anos.
Rima respirou fundo, tentando absorver essa última revelação.
— Então nós… eu e você, não somos parentes de sangue? — perguntou, sentindo o absurdo da pergunta mesmo enquanto a pronunciava, mas precisava ter certeza.
Nabil riu uma risada triste e leve, a primeira risada verdadeira que ela ouvia dele.
— Não, não somos parentes de sangue, Rima. Mas as histórias de nossas duas famílias estão entrelaçadas de um jeito que não se pode separar, e acho que isso basta para nos tornar, pelo menos, algo mais próximo do que dois estranhos que se encontraram por acaso num café em Viena.

Quando o avião pousou no aeroporto de Viena, Rima sentiu uma sensação estranha e dupla: alívio por voltar a um lugar seguro e familiar, e a sensação de que aquele mesmo lugar já não se parecia mais com “casa” no mesmo sentido a que se acostumara por trinta e quatro anos. Viena era a cidade onde crescera, mas Damasco se tornara agora, depois de uma única visita, algo bem mais profundo que isso, algo parecido com a raiz que ela nem sabia que precisava até finalmente encontrá-la.
Clara a esperava no portão de chegada, e a abraçou forte por longo tempo antes de se afastar para examinar seu rosto com preocupação.
— Você está muito pálida, Rima. O que aconteceu lá? Suas mensagens curtas não me contaram o suficiente.
As duas amigas passaram o resto daquele dia no apartamento de Rima, onde ela lhe contou tudo em detalhe: Khadija, a casa antiga, o homem que a ameaçara na rua, e por fim a revelação de Nabil sobre sua verdadeira identidade.
Clara ficou em silêncio longo quando a história terminou, encarando a xícara de café frio.
— Rima, sei que isso vai soar duro, mas sinto o dever de perguntar: como podemos ter certeza de que Nabil está mesmo dizendo a verdade? Tudo o que sabemos sobre ele vem só da boca dele mesmo.
— Eu sei disso — disse Rima com calma. — Mas Khadija confirmou uma grande parte da história de forma totalmente independente, sem sequer saber da existência de Nabil. E eu vi a ameaça com meus próprios olhos, e senti o medo real em sua voz quando me avisou. Não acho que um homem inventaria todos esses detalhes sobre um pai morto, e sobre um medo que carregou a vida inteira.

À noite, depois que Clara foi embora, Rima sentou-se sozinha diante da tela que trouxera de volta do armário de Clara, e olhou longamente para o rosto de Lamis, agora com um conhecimento novo e completo sobre sua vida, seu amor e seu desaparecimento misterioso.
Depois pegou o celular, e ligou para o tio Kamal, pela primeira vez desde que deixara Istambul.
Ele atendeu depois de apenas dois toques.
— Rima! Finalmente, estava muito preocupado. Onde você está agora?
— Em Viena, tio Kamal. Voltei hoje.
Fez uma pausa, reunindo coragem para o que diria a seguir.
— Mas não fui a Istambul só a trabalho do museu, como lhe disse. Fui rastrear o espólio de uma mulher chamada Wafa Najjar. Depois fui a Damasco, tio Kamal. Encontrei Khadija.
Um longo e pesado silêncio se instalou do outro lado da linha, um silêncio como ela nunca ouvira do tio desde que o conhecia. Quando por fim falou, sua voz era completamente diferente, exausta, como se anos de peso tivessem caído de seus ombros de repente e ele não conseguisse mais suportá-los sozinho por um instante a mais.
— Então você já sabe — disse simplesmente, sem negação nem tentativa de fuga. — Eu sabia que esse dia chegaria algum dia. Só não sabia quando, nem como conseguiria suportar ouvir sua voz dizendo essas palavras.
— Por que você nunca me contou? — perguntou Rima, sentindo as lágrimas voltarem. — Durante todos esses anos, você me deixou viver sem saber quem eu realmente era.
Kamal soltou um suspiro longo e cansado.
— Eu não conhecia a verdade completa, Rima, pelo menos não no início da minha vida. Minha mãe, quem eu achava que fosse Salma a vida inteira, me contou a verdade só no leito de morte, quando eu tinha trinta anos. Pediu-me uma única coisa antes de partir: que eu protegesse a família, e protegesse você especialmente, porque na época você ainda era uma criança pequena que acabara de perder os pais, de uma verdade que eu achava que a destruiria naquela idade.
Fez uma pausa.
— E do homem que ainda, até a morte da minha mãe, vigiava de perto qualquer movimento nesse processo.
— O ex-oficial — disse Rima. — Que salvou Anwar.
— Você já sabe disso também, então.
Rima sentiu que a voz do tio carregava agora um alívio estranho, apesar de tudo, como se sentisse finalmente, depois de décadas de isolamento naquele segredo, que já não estava mais sozinho nele.
— Sim, conheço, e o temo muito mais do que você imagina, Rima. E é a razão de todas aquelas mensagens breves que eu lhe mandava ao longo dos anos, e de toda aquela distância que mantive entre nós de propósito. Temia que minha proximidade com você a tornasse um alvo dele algum dia, se suspeitasse que eu escondia de você algo que merecesse ser revelado.
Rima ficou em silêncio, sentindo pela primeira vez na vida que realmente entendia aquela parede de vidro que sempre sentira existir entre ela e o tio: não era um muro de indiferença, como sempre pensara, mas um muro de proteção, construído com um medo silencioso que durara décadas.
— Preciso saber de tudo, tio Kamal — disse por fim. — Tudo o que você sabe sobre esse homem, e sobre o que exatamente ele fez. Não posso parar agora, não depois de tudo o que vi e ouvi.
— Eu sei disso — disse Kamal com uma tristeza calma. — E talvez tenha finalmente chegado a hora de esta família parar de se esconder. Vou a Viena em dois dias, Rima. Vou lhe contar tudo cara a cara, como deveria ter feito há muito tempo.

Kamal chegou a Viena dois dias depois, como prometera, e Rima ficou na sala de chegadas observando a porta com uma tensão que não sentia havia muitos anos. O último encontro cara a cara entre os dois remontava ao funeral de seus pais, quando ela ainda era uma garota de dezesseis anos, parada atrás de uma cortina espessa de luto através da qual só via rostos compassivos e indistintos.
Quando ele por fim apareceu, Rima sentiu um leve choque: um homem no fim dos cinquenta, elegante como sempre, mas algo em seus olhos parecia completamente diferente da imagem que construíra dele ao longo dos anos — um homem distante, frio, sempre ocupado. O homem parado diante dela agora parecia exausto, frágil de um jeito profundamente humano que jamais esperara dele.
Abraçou-a com uma força incomum, um abraço longo e silencioso, como quem tenta compensar num único minuto todos os anos de distância que impusera a si mesmo.
— Você cresceu tanto, Rima — disse por fim, a voz ligeiramente sufocada. — E se parece cada vez mais com ela, quanto mais eu olho para você.

Sentaram-se no apartamento de Rima até tarde da noite, a tela pendurada no canto do quarto observando os dois com seu silêncio habitual. Kamal tirou da mala uma pasta espessa de documentos, reunida ao longo de longos anos em silêncio, sem nunca ousar usá-la.
— O nome dele é Faruq Al-Masri — disse Kamal, pousando na mesa uma fotografia antiga: um homem na casa dos quarenta, em uniforme militar formal, traços duros e olhos frios. — Era um oficial de grande influência naquele mesmo órgão que deteve Anwar e Salma naquela noite. Poucos anos depois, renunciou de repente ao serviço militar, e usou suas amplas relações e informações sensíveis para construir um enorme império comercial, que se estendeu depois a Dubai, Beirute e outras capitais.
— E o que exatamente ele teme? — perguntou Rima, examinando a fotografia com olhos frios, tentando ver naquele rosto o homem que a ameaçara escondido atrás de outro homem numa rua escura de Damasco.
— Apesar de ter salvado a vida de Anwar no fim, a maneira como o salvou não foi nada limpa — disse Kamal com amargura evidente. — Pelo que sei da minha mãe, Faruq não libertou Anwar de graça, mas o usou por anos depois como testemunha silenciosa de negócios e transações que não eram legais de forma alguma, explorando o medo constante do homem de voltar à detenção caso se recusasse a colaborar. Anwar carregou na memória, até sua morte, nomes, datas e detalhes suficientes para destruir a reputação de Faruq Al-Masri por completo, se algum dia viessem a público.
Rima entendeu de repente uma nova dimensão da história que não esperava.
— Então talvez o próprio Nabil carregue informações perigosas herdadas do pai?
— É bem possível, sim. E talvez isso explique por que Faruq está agindo agora, apenas dois anos depois da morte de Anwar, quando começou a temer que o filho herdasse não só a dor, mas os segredos também, e pudesse um dia usá-los.

Rima olhou longamente para o tio, e fez uma pergunta que a atormentava desde o início da conversa.
— Tio Kamal, o que fazemos agora? Enfrentamos ele? Denunciamos às autoridades? Nem sei por onde começar.
Kamal pensou longamente antes de responder, os dedos tamborilando a borda da mesa com leve nervosismo.
— Acho que primeiro precisamos falar com Nabil diretamente, cara a cara, nós três juntos. Se ele realmente tem informações ou documentos que o pai lhe deixou, podem ser nossa única arma diante de um homem com o poder de Faruq. Não podemos contar com as autoridades num país onde esse mesmo homem ainda goza de amplas relações até hoje.
Rima ligou para Nabil naquele exato instante, e colocou o telefone no viva-voz.
— Nabil, meu tio Kamal está aqui comigo em Viena. Precisamos nos encontrar, nós três, o mais rápido possível.
Um breve silêncio do outro lado da linha.
— Amanhã — disse Nabil por fim, a voz carregando uma firmeza nova que ela nunca ouvira nele. — Estarei em Viena de manhã. E vou trazer comigo algo que meu pai me deixou antes de morrer. Achei por muito tempo que nunca chegaria o momento certo de usá-lo. Talvez esse momento tenha finalmente chegado.

Nabil chegou ao apartamento de Rima na manhã seguinte, carregando uma pequena maleta de couro que parecia antiga, de fabricação elegante, marcada por um longo uso. Parou à porta por um instante ao ver Kamal de pé lá dentro, como se algo naquele encontro com o homem que vivera décadas do outro lado do mesmo silêncio o desconcertasse por alguns segundos.
— Senhor Kamal — disse Nabil por fim, estendendo a mão com uma educação cautelosa. — Meu pai falava muito da família Najjar, embora nunca o tenha conhecido pessoalmente, é claro, já que o senhor nasceu depois de seu desaparecimento.
Kamal apertou-lhe a mão com força, os olhos carregando uma mistura estranha de tristeza e gratidão.
— Seu pai salvou a vida de nossa família com seu silêncio por trinta anos, apesar de tudo que sofreu. Obrigado por ter vindo, meu filho.
Sentaram-se os três ao redor da mesma mesa sobre a qual a caixa de madeira fora colocada pela primeira vez no início de toda essa história, e Nabil abriu a maleta de couro com extremo cuidado.
— Meu pai me deixou isto poucas semanas antes de morrer — disse, tirando um maço de papéis amarelados, alguns impressos e outros escritos numa caligrafia trêmula. — Ordenou-me que só os abrisse numa única situação: se algum dia eu sentisse que Faruq Al-Masri, ou qualquer pessoa trabalhando para ele, representasse um perigo real para alguém ainda vivo. Disse-me: “Esses papéis não são para vingança, apenas para proteção, caso você um dia precise proteger a si mesmo ou qualquer outra pessoa inocente.”
Espalhou os papéis sobre a mesa com extremo cuidado: cópias de documentos oficiais antigos, nomes e datas detalhados, fotografias de recibos bancários carregando a própria assinatura de Faruq Al-Masri, e nomes de empresas fantasmas usadas, segundo o que Anwar escrevera numa margem à mão, “para lavar dinheiro de negócios que jamais veriam a luz se sua verdadeira natureza fosse conhecida”.
Rima examinou os papéis com os olhos de especialista em restauro, acostumada a inspecionar documentos antigos com precisão, e sentiu o peso do que tinha nas mãos: já não era apenas uma história de família, mas uma prova material concreta de crimes reais, documentada pela mão de um homem que vivera longos anos obrigado ao silêncio.
— Por que seu pai nunca os usou? — perguntou Kamal, examinando um dos documentos com a mão levemente trêmula.
Nabil recostou-se na cadeira, e olhou para longe por um instante, como quem invoca a lembrança do pai.
— Ele viveu com medo a vida inteira, senhor Kamal. Não só por si mesmo, mas por mim, por minha mãe, por qualquer pessoa que pudesse se machucar se Faruq tentasse se vingar. Ele sempre me dizia: “A vingança não devolve o que perdemos, apenas expõe ao perigo quem nos resta.” Mas nos últimos dias, quando soube que não viveria muito mais, começou a pensar de um jeito diferente. Disse-me que talvez fosse hora do medo parar em sua geração, em vez de passar para outra.
Rima ficou sentada em silêncio longo, revirando na mão a fotografia de um recibo bancário datado de 1991, e sentiu que agora carregava mesmo uma arma real, não apenas uma curiosidade familiar passageira.
— O que fazemos com esses papéis agora? — perguntou. — Entregamos às autoridades? A um jornal? Enfrentamos Faruq diretamente?
Kamal e Nabil se entreolharam por um instante, como se trocassem uma pergunta silenciosa que nenhum dos dois ainda ousara pronunciar em voz alta.
— Acho — disse Nabil por fim, devagar e com cautela — que a melhor forma de lidar com um homem como Faruq não é o confronto direto, que poderia nos expor a perigo, mas enviar-lhe uma mensagem clara: que essas provas existem, guardadas em lugar seguro, e que serão publicadas automaticamente se algo de mal acontecer a qualquer um de nós. Um homem como ele entende a linguagem da dissuasão muito melhor do que entende a linguagem da justiça direta.
Rima balançou a cabeça devagar, concordando com a lógica do plano, mas outra pergunta ainda pesava em seu peito.
— E Lamis? Ainda resta uma pergunta que não respondemos: ela está mesmo viva em algum lugar? Faruq sabe algo sobre seu destino que ainda não nos contaram?
Nabil olhou para ela longamente, e em seus olhos havia algo parecido com a última hesitação.
— Há um único papel neste maço que ainda não lhe mostrei, Rima. Meu pai o escreveu de próprio punho, em seus últimos dias, quando já não temia mais nada de verdade. Acho que você deve lê-lo você mesma.
Tirou do maço uma única folha pequena, dobrada com cuidado, e estendeu-a a Rima com uma mão levemente trêmula.

Rima abriu o papel com as mãos tremendo visivelmente, sem tentar mais escondê-lo. A caligrafia era fraca, interrompida em algumas palavras, como a letra de um homem escrevendo sabendo que sua mão não seguraria uma caneta por muito mais tempo.
“A quem interessar possa, se o destino um dia reunir a neta de Lamis a estas palavras:
Só soube o verdadeiro destino de Lamis vinte anos inteiros depois daquela noite em que fomos separados no posto de controle. Em 2007, e eu vivia então numa pequena cidade no sul da França sob um nome que não era o meu, recebi uma carta que jamais esperava, enviada por um advogado em Genebra, informando-me que uma mulher chamada ‘Catherine Laurent’, de nacionalidade francesa, falecera poucas semanas antes, e deixara um testamento pedindo que fosse procurado, e que me fosse entregue um pequeno caderno de cartas que ela guardara a vida inteira.
Catherine Laurent era Lamis, a quem lê estas palavras. Ela também foi libertada, depois de longos meses de detenção, mas sob uma condição idêntica à minha: desaparecer para sempre, adotar uma identidade nova e completa, e nunca tentar buscar a mim ou a sua família. Foi enviada à França dentro de um acordo secreto cujos detalhes nunca compreendi por completo, construiu uma vida tranquila e simples como professora de desenho numa escola pequena, e nunca se casou, nem teve filhos.
Viveu sozinha, desenhando toda noite um único quadro de um rosto que não via na realidade havia duas décadas, depois rasgando o quadro pela manhã, com medo de que alguém a encontrasse por causa daqueles quadros um dia.
Não tive a chance de vê-la. O advogado me contou que ela morrera em paz, dormindo, depois de uma doença breve. Mas seu caderno estava cheio de lembranças nossas, de nossos pequenos sonhos que não se realizaram, e de outra coisa muito mais importante que ela não sabia no dia em que fomos separados: que estava grávida quando foi presa, de poucas semanas apenas, e só descobriu depois, e decidiu esconder o fato até do próprio filho quando crescesse, com medo de que ele também se tornasse alvo daqueles que ainda temiam o retorno do nome de Lamis Najjar à vida.”
Rima parou de ler, as mãos tremendo com violência agora.
— Um filho? — sussurrou, a voz completamente sufocada. — Lamis teve um filho?
Continuou a leitura, o coração batendo com uma força que quase doía:
“Criou-o em Genebra sob outro nome, uma filha, nascida em 1988, poucos meses depois de sua libertação. Chamou-a de ‘Sophie’, mas escreveu em seu caderno que a chamava em segredo de ‘Rima’, um nome que pretendia dar à filha caso sua vida tivesse tomado um rumo diferente. Essa Sophie, filha verdadeira de Lamis, ainda está viva segundo minhas últimas informações, vive em algum lugar da Europa, e não sabe nada sobre sua origem verdadeira, nem sequer que nasceu em circunstâncias secretas excepcionais.”
O papel caiu da mão de Rima, e ela ficou sentada em completo silêncio por longos minutos, incapaz de pronunciar uma única palavra.
Ela tinha uma tia. Chamada Sophie. Filha verdadeira de Lamis, que não sabia nada sobre si mesma, vivendo em algum lugar da Europa, talvez a poucas horas apenas da própria Viena.
— Rima — sussurrou Nabil com cuidado, pousando a mão em seu ombro. — Você está bem?
Rima ergueu os olhos para ele, lágrimas escorrendo pelo rosto que de repente carregava um significado novo e completo que jamais esperara.
— Essa jornada ainda não terminou, não é? Tenho uma tia de verdade, em algum lugar, que nem sabe quem realmente é. Não posso deixar assim. Preciso encontrá-la.

Os três ficaram sentados ao redor da mesa até altas horas da noite, discutindo dois planos paralelos que precisavam ser tratados ao mesmo tempo: como buscar Sophie, e como enviar a mensagem de dissuasão a Faruq Al-Masri sem expor ninguém a um risco adicional.
— Vamos começar pelo advogado em Genebra — sugeriu Nabil. — Que contatou meu pai em 2007. Talvez ainda esteja vivo, ou pelo menos seu escritório mantenha registros do caso.
— Tenho o nome dele na carta que enviou — acrescentou, procurando no maço de papéis até encontrar a carta original: — O advogado Jean-Pierre Rousseau, escritório em Genebra.
Rima escreveu o nome em seu caderno de anotações, a mão ainda tremendo um pouco.
— Vou ligar para ele amanhã de manhã. Mas mesmo que Sophie ainda esteja viva, como vou contar a ela? Ela não sabe nada sobre mim, nem sobre sua própria verdade. Talvez tenha construído uma vida inteira que não quer ver abalada de repente por uma mulher estranha surgindo do nada para dizer que tudo o que sabia sobre si mesma era mentira.
Kamal olhou para ela com olhos carregando uma compreensão profunda que ela não esperava.
— Você sabe agora exatamente o que significa descobrir uma verdade dessas de repente, Rima. Talvez isso faça de você a única pessoa neste mundo capaz de contar a ela com delicadeza e sabedoria suficientes.

Antes de Nabil partir naquela noite, conversaram longamente sobre Faruq Al-Masri. Kamal sugeriu que fotografassem múltiplas cópias dos documentos, e as depositassem com três advogados em países diferentes, com instruções claras de publicá-las automaticamente se qualquer um dos três, ou Khadija, ou Sophie quando a encontrassem, sofresse dano direto ou indireto.
— Vou cuidar eu mesmo de enviar uma mensagem a Faruq — disse Kamal com uma determinação que Rima nunca vira nele antes. — Conheço a forma de contatá-lo, através de um intermediário que usei por muitos anos para pagar o que eu achava ser o preço de seu silêncio. Vou dizer a ele que a família não tem mais medo, e que qualquer nova tentativa de nos ameaçar será respondida com a publicação imediata de tudo o que sabemos.
Rima sentiu um orgulho estranho pelo tio naquele instante — um homem que vivera décadas dominado por seu medo, transformando-se agora diante de seus olhos em alguém completamente diferente, como se o próprio ato de revelar o segredo o tivesse libertado de um peso que já não conseguia mais carregar.

Na manhã seguinte, Rima ligou para o escritório do advogado Rousseau em Genebra. Atendeu-a uma secretária com sotaque francês formal, que lhe disse que o senhor Rousseau se aposentara havia anos, mas que o escritório ainda mantinha o arquivo de seus antigos processos, e que ela precisaria comprovar um parentesco oficial para obter qualquer informação relativa ao caso de “Catherine Laurent”.
Rima passou os dias seguintes num turbilhão de documentos oficiais: pedido de cópia da certidão de nascimento de seu pai, comprovação de sua descendência por meio de um exame genético comparativo com DNA que extraiu com extremo cuidado de um fio de cabelo preso no antigo caderno de couro da própria Lamis, correspondências oficiais intermináveis com as autoridades do registro civil suíço.
Cada etapa daquele caminho era lenta, exaustiva, burocrática a ponto de quase esgotar sua paciência repetidas vezes, mas ela se lembrava a cada momento do rosto de Lamis na tela, e daquela frase que Anwar escrevera: “chamava-a em segredo de Rima.” Sentia que agora carregava um compromisso verdadeiro, não uma mera curiosidade pessoal, mas uma promessa silenciosa a uma mulher que nunca conhecera, de completar o que ela mesma não conseguira concluir.
Depois de duas semanas inteiras de espera exaustiva, chegou-lhe um e-mail do escritório do advogado Rousseau, carregando no assunto poucas palavras que mudaram tudo de novo:
“Quanto à sua consulta sobre a senhora Sophie Laurent — endereço atual disponível.”

O endereço levava a uma pequena vila tranquila na região da Alsácia, na fronteira entre a França e a Alemanha, onde Sophie Laurent trabalhava, segundo o que Rima descobrira numa busca cautelosa pela internet, como professora de arte numa pequena escola secundária — exatamente como fora sua mãe antes dela, sem nunca saber que seguia seus passos.
Rima decidiu fazer essa viagem específica sozinha, sentindo que a presença de Nabil ou Kamal poderia deixar a situação ainda mais confusa para uma mulher que não sabia nada sobre toda aquela história complicada. Pegou um trem saindo de Viena, e passou as longas horas da viagem tentando encontrar as palavras certas, a forma menos chocante de dizer a uma mulher completamente estranha: “Sou filha de sua prima. Sua mãe não é a mulher que você pensa que é.”
Na manhã seguinte, Rima ficou diante da pequena escola, observando a porta com uma ansiedade parecida com a que sentira ao ver a tela pela primeira vez. Viu-a por fim, quando saiu no intervalo do meio-dia: uma mulher no fim dos trinta anos, cabelos escuros presos com um descuido elegante atrás da cabeça, carregando um rolo de desenhos debaixo do braço, e no rosto, apesar da diferença nos traços exatos em relação a Rima, algo que não escapava ao olho de uma restauradora acostumada a ler rostos com precisão: a mesma curva de sobrancelha, a mesma inclinação de cabeça quando pensava.
Rima se aproximou com passos hesitantes.
— Com licença, você é Sophie Laurent?
A mulher olhou para ela com curiosidade educada.
— Sim, sou eu. Posso ajudá-la?
Rima hesitou por um instante, depois decidiu que a sinceridade direta, mesmo que chocante, era melhor do que qualquer introdução tortuosa.
— Meu nome é Rima Najjar. Sei que isso vai soar muito estranho, mas trago informações sobre sua mãe falecida, sobre a vida dela antes de vir para a França. Achei que você tinha o direito de conhecê-las.
O rosto de Sophie escureceu de repente, uma mistura de cautela e curiosidade verdadeira.
— Minha mãe nunca falou do passado. Sempre dizia que não gostava de olhar para trás. Quem é você exatamente, e como sabe sobre ela algo que eu mesma não sei?
— Podemos nos sentar em algum lugar tranquilo? — perguntou Rima com delicadeza. — A história é longa, e quero contá-la do jeito certo, sem pressa.

Sentaram-se num pequeno café perto da escola, e Rima começou a narrar a história desde o início: a tela que chegara em Viena, a semelhança impressionante, o caderno em Istambul, Khadija em Damasco, e por fim, a última folha que Anwar Hilmi escrevera antes de morrer.
Sophie escutou em silêncio absoluto o tempo todo, o rosto passando gradualmente da dúvida ao espanto até algo bem mais profundo, algo parecido com uma velha tristeza que finalmente encontrava seu nome verdadeiro depois de longos anos de mistério inexplicado.
— Ela desenhava toda noite — sussurrou Sophie por fim, lágrimas escorrendo em silêncio pelo rosto. — Sempre achei que desenhava paisagens, ou coisas comuns. Nunca vi o que ela desenhava, porque sempre fechava a porta do quarto quando desenhava, e de manhã eu não encontrava nada, nem o quadro, nem sequer restos de papel na lixeira. Achava que fosse um hobby estranho de que ela não me contava os detalhes, e nunca entendi bem por quê.
Rima tirou da bolsa uma foto da tela original que dera início a tudo, tirada com o celular antes da viagem.
— Acho que ela desenhava isso, noite após noite, por vinte anos. O próprio rosto dela, como era em Damasco, antes que tudo mudasse.
Sophie olhou para a foto por longo tempo, depois ergueu os olhos para o rosto de Rima, depois voltou à foto de novo, comparando os dois rostos em silêncio.
— Você se parece muito com ela — disse por fim, a voz trêmula. — E eu… acho que estou vendo agora no seu rosto algo que via no meu espelho todas as manhãs sem entender de verdade a origem.
Estendeu a mão com hesitação, e segurou a de Rima sobre a mesa.
— Obrigada — disse, a voz completamente quebrada agora. — Obrigada por não me deixar viver o resto da vida sem saber quem eu realmente era, e quem minha mãe realmente foi.

No caminho de volta da Alsácia a Viena, Rima recebeu uma ligação do tio Kamal, a voz carregando um tom que nunca ouvira nele antes, uma mistura de tensão e alívio ao mesmo tempo.
— A mensagem chegou até ele — disse Kamal assim que Rima atendeu. — Enviei uma cópia dos documentos, com uma mensagem clara pelo mesmo intermediário: que cópias adicionais estão guardadas com três advogados em países diferentes, e que qualquer dano que atinja qualquer um de nós, incluindo Sophie, que agora se tornou parte desta história, resultará em sua publicação imediata nos jornais de maior circulação da região.
— E qual foi a resposta dele? — perguntou Rima, o coração batendo de tensão.
Kamal soltou um suspiro longo.
— Ele não respondeu pessoalmente, claro, um homem de sua posição não fala diretamente sobre esses assuntos. Mas o intermediário me ligou dois dias depois, e transmitiu uma mensagem bem curta: “Não há necessidade de mais tensão. O passado fica no passado, e o presente também fica no presente. Que cada um de nós viva sua vida em paz.” Acho que é sua maneira de dizer que aceita a trégua, Rima, desde que as provas permaneçam guardadas como garantia silenciosa, sem serem publicadas de fato.
Rima sentiu um alívio se espalhar por todo o corpo, mas era um alívio misturado com uma leve amargura.
— Então um homem assim, depois de tudo o que fez, vai escapar sem punição verdadeira?
— Sei que isso não é justiça completa, Rima — disse Kamal com uma calma sábia. — Mas a justiça completa nem sempre está ao nosso alcance, principalmente com homens que construíram seus impérios sobre as ruínas do silêncio alheio. O que conquistamos hoje é outra coisa, talvez mais importante: uma segurança real, para nós e para quem vier depois de nós, e um fim para trinta anos de medo silencioso que esta família carregou sozinha.

Depois de encerrar a ligação, Rima ficou sentada em seu lugar no trem, observando o campo europeu passar rapidamente pela janela, campos verdes e pequenas vilas tranquilas se sucedendo num ritmo tranquilizador.
Pensou em tudo o que acontecera nas últimas semanas: um quadro que chegara numa caixa de madeira, um rosto que se parecia com o seu pintado anos antes de seu nascimento, uma viagem a Istambul, depois a Damasco, depois à Alsácia, um fio levando a outro fio até a história inteira se revelar: um amor proibido, um sacrifício entre gêmeas, uma usurpação de identidade que durou décadas, e duas mulheres que viveram vidas inteiras sob nomes que não eram os seus.
Tirou o celular, e olhou para a foto que tirara com Sophie antes de partir: duas mulheres carregando os traços de uma mesma família, reunidas pela primeira vez depois de décadas de separação não intencional. Sentiu um sorriso verdadeiro se formar no rosto pela primeira vez em muitos dias.
O celular tocou com uma nova mensagem. Era de Nabil:
“Chegou bem? Quero saber como foi o encontro com a Sophie. E também… quero vê-la quando voltar. Tenho uma coisa que quero dizer, desta vez sem relação com Anwar, Lamis, ou qualquer parte dessa velha história.”
Rima sorriu ao ler a mensagem, sentindo um calor inesperado se espalhar pelo peito, um calor que não tinha relação com o enigma que os unira no início, mas com algo completamente novo que começava a crescer em silêncio entre os dois ao longo de todas aquelas semanas de ligações, encontros e medos compartilhados.

Rima voltou a Viena numa tarde de primavera tranquila, e a cidade a recebeu com aquela luz alaranjada suave que ela sempre amara. Nabil a esperava na estação de trem, carregando uma única rosa branca, que a fez lembrar, ao vê-la, do velho florista que lhe oferecia a mesma rosa toda tarde, naquela noite distante em que toda essa jornada começara, quando a recusara dizendo que aquela semana não precisaria de flores.
— Você errou nesse cálculo naquela vez — disse Nabil com um leve sorriso quando ela lhe contou a lembrança, estendendo-lhe a rosa. — Na verdade, aquela semana precisava de mais que uma única rosa, se você soubesse o que estava por vir.

Nos dias seguintes, Rima levou a tela ao laboratório de restauro do museu, para finalmente completar o que começara semanas antes: revelar aquela camada oculta que Jürg apontara em seu primeiro exame, no canto superior direito da tela.
Trabalhou com a paciência de monge que Clara sempre lhe atribuíra, passando o algodão embebido com delicadeza sobre a superfície da tela, camada após camada, até que por fim apareceu o que Anwar começara a pintar e depois cobrira de propósito: pequenas palavras, escritas numa caligrafia artística fina entre as sombras do fundo, em árabe, quase completamente apagadas se não fosse pela mão de Rima sabendo exatamente onde procurar:
“Para quem um dia enxergar este rosto: este amor não se completou em seu tempo, mas nunca terminou. Olhe para ele como você é, não como ela foi, e continue o que não pudemos continuar.”
Clara ficou de pé atrás dela, observando a revelação em silêncio maravilhado.
— Rima, isso… isso significa que ele sabia, mesmo pintando esse quadro no fim da vida, que ele um dia chegaria a alguém que carregasse o rosto de Lamis.
— Ele não sabia exatamente — disse Rima calmamente, ainda encarando as palavras recém-reveladas. — Mas tinha esperança. Pintou-a e deixou uma mensagem para ela, confiante de que o tempo encontraria seu caminho no fim para entregá-la a quem precisasse, mesmo que levasse mais trinta anos.

Depois de terminar o restauro, Rima convidou todos ao seu apartamento: Kamal, que agora a visitava a cada duas semanas mais ou menos, depois que aquele muro de vidro que os separara por décadas se desgastara; e Nabil, cuja presença em sua vida se tornara algo que ela não conseguia mais imaginar as semanas sem; e Clara, claro, que a acompanhara em cada passo dessa longa jornada.
Na tela, por videochamada, apareceu Khadija de Damasco, sorrindo, e ao lado, em outra tela, Sophie da Alsácia, que prometera visitar Viena no verão seguinte para conhecer o resto da família pela primeira vez pessoalmente.
Rima olhou ao redor naquele instante: uma família de um tipo que jamais imaginara, espalhada por três continentes e três línguas, unida finalmente por uma caixa de madeira que chegara à porta de seu prédio numa noite comum de que não esperava nada. Olhou para a tela pendurada diante dela, o rosto de Lamis a encarando com calma, mas algo naqueles olhos pintados parecia diferente agora do que fora na primeira noite em que os vira: já não parecia aquela inquietação visível nos traços uma espera suspensa sem fim, mas uma satisfação serena, como se a mensagem que a tela carregara através de todos aqueles anos tivesse finalmente chegado a quem esperava.

O verão passou depressa, como passam as estações quando a vida finalmente se enche depois de longos anos de um vazio inexplicado. Sophie cumpriu sua promessa, e chegou a Viena no fim de agosto, carregando na bagagem um pequeno quadro que pintara ela mesma especialmente para a ocasião: o rosto de uma mulher sorrindo com plena liberdade, sem qualquer inquietação ou espera, inspirado na antiga fotografia que Rima encontrara no cofre em Istambul — Lamis no ateliê de Anwar, verão de 1987, antes que tudo mudasse.
Todos se reuniram no próprio museu de Viena, numa pequena sala que o professor Steiner reservara, depois que Rima lhe contara parte da história que o comovera com uma profundidade humana rara em seu trabalho diário habitual, para montar uma pequena exposição especial: a tela original de Lamis, agora completamente restaurada, ocupando o centro da sala, e ao lado, o novo quadro de Sophie, e entre eles, numa moldura pequena de vidro, a fotografia que reunira Lamis e Anwar naquele verão distante.
Rima a batizou, com o consentimento de todos, “A lavra que ainda não foi pintada”, em homenagem àquela frase que tantas vezes ecoara em sua mente ao longo de toda a jornada: a de que a história de Lamis e Anwar não se completara em seu tempo, mas nunca terminara — continuara sendo pintada através das gerações, em rostos que ainda não tinham nascido, em cidades que os protagonistas originais da história jamais haviam pisado.

Rima ficou parada na noite de abertura, em meio ao público pequeno e cuidadosamente escolhido, Kamal à sua direita, e Nabil à esquerda, segurando sua mão com calma, e Sophie e Clara trocando conversas ali perto num francês quebrado e risadas sinceras.
Na tela grande pendurada num canto da sala, apareceu Khadija de Damasco por chamada de vídeo ao vivo, sorrindo com evidente orgulho, e atrás dela na imagem, um vislumbre do pátio de sua antiga casa damascena, onde de fato começaram todos os fios dessa história décadas antes.
Rima olhou para a tela original diante dela, depois para o reflexo apagado de seu próprio rosto no vidro da moldura ao redor, aquele mesmo gesto que fizera um dia diante do espelho da entrada de seu apartamento em Viena, na manhã seguinte à chegada da caixa de madeira.
Era ela mesma, sem dúvida, como fora naquele dia. Mas já não via mais um rosto estranho encarando-a do fundo daquele reflexo, como sentira naquela noite distante. Aquele outro rosto se tornara parte dela agora, reconciliado com o rosto que conhecia a vida inteira, não estranho a ele nem separado, mas uma extensão natural dele, uma única história contínua através de três gerações de mulheres que carregaram o mesmo rosto, e o mesmo nome, ainda que tivessem vivido vidas completamente diferentes.
Nabil se aproximou com calma, e sussurrou em seu ouvido:
— Em que você está pensando?
Rima sorriu, e olhou para ele, depois para a tela mais uma vez.
— Estou pensando que toda tela, por mais longo que seja o tempo que espera completa, encontra no fim a mão que a completa. E que algumas histórias, apesar de toda a escuridão, o silêncio e o medo que se estendem por décadas, sempre encontram no fim seu caminho para a luz.
Ficaram parados juntos longamente diante da tela, naquela tarde quente de verão, enquanto as vozes entrelaçadas de uma família nascida do ventre de um segredo antigo enchiam a sala ao redor deles: árabe, alemão e francês se entrelaçando num único tecido caloroso, exatamente como se entrelaçaram os fios dessa história através de trinta anos e três continentes, para finalmente encontrar sua conclusão naquela pequena sala calorosa, onde a tela já não esperava mais uma carta que jamais chegaria, mas finalmente celebrava a chegada de todas as cartas cuja espera se prolongara tanto.

FIM

Numan Albarbari

Backnang – Baden-Württemberg – Alemanha

Quinta-feira
22 de Jumada al-Thani de 1445 H.
4 de janeiro de 2024

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